Os quatro professores reunidos pela Folha em Curitiba para o debate sobre ‘‘O Valor do Voto’’ – Maria Lucia Victor Barbosa, Valdir Gregory, Marco Aurélio Monteiro Pereira e Ricardo Costa de Oliveira analisaram a questão central considerando variáveis, hipóteses e fatos durante mais de três horas, em companhia de jornalistas da Folha. Este é o extrato do debate:
Folha Os senhores se referiram às denúncias contra vários prefeitos. No começo do ano, a CPI do Narcotráfico passou pelo Paraná. Dizem que isso não teria acontecido em tempos passados. Como se analisa isso?
Maria Lucia Até o processo político como um todo, enquanto processo, segue uma linha evolutiva. As coisas não acontecem de um dia para o outro. Temos que levar em conta nossa formação histórica. Acredito que a onda de moralização seria a sensação mais nítida do cidadão comum de que ele está senso lesado pelo Poder Público. Isto é que se chama onda de moralização. Agora, esta onda acaba produzindo certos efeitos antes impensados... A cassação do prefeito de Londrina até um ano atrás ou dois, isto seria uma coisa inimaginável. Em outros casos do Paraná, também.
Gregory O tema da corrupção me interessa e é semelhante é uma novela. A corrupção na mídia é uma construção, não totalmente descolada do interesse público e não descolada de uma realidade. E para a própria imprensa, aquelas páginas são importantes para a imprensa... vivemos numa sociedade que contrói e destrói ídolos. O político também é um ídolo e parece que a gente se diverte quando alguns ídolos são destruídos. Então política também é um pouco de diversão na sociedade, a eleição é um momento lúdico.
Folha Qual é o papel real da mídia nas eleições?
Gregory Acho que ela tem papel fundamental...
Maria Lucia Concordo com o professor Gregory no aspecto do político em relação ao ídolo... os mitos são construídos e rapidamente... a distância do político e do eleitorado ela sempre existiu, mas a proximidade, como um todo, a distância é enorme... a coisa da figura sagrada onde não se podia nem olhar, o acesso que existia hoje não existia no passado. Na época de campanha eles se aproximam e depois de retiram porque o poder ... eles se fecham em portões, em muros, em seguranças, o poder sempre se resguarda. A proximidade é apenas aparente... Essa proximidade nunca existiu, existem imagens construídas, hoje muito mais pelas técnicas de marketing. Citando Maquiavel, ‘‘poucos sabem como és por dentro, a maioria vê como és por fora. E os poucos não ousaram levantar-se contra ti que tem por si a majestade do Estado ... porque o vulgo julga com os olhos e não com as mãos e não é o vulgar que faz o mundo’’. A aparência é que prevalece e a proximidade é sempre relativa em todas as épocas...
Folha Mas a mídia desnudou os políticos?
Marco Aurélio No caso do Brasil, um dos primeiros weberianos, socialista chamado Raymundo Faoro, autor de uma obra clássica chamada ‘‘Os donos do Poder’’ onde se desnuda de forma cristalina esta questão do patrimonialismo... No fundo o que se percebe é que uma onda de moralização não tem sido nada mais do que o processo de substituição daqueles que vão comandar o processo de corrupção. Todas estas ondas de moralização foram sucedidas ... os moralizadores de ontem são os corruptos que serão derrubados pelos moralizadores de amanhã... Na história recente do Brasil, o presidente Fernando Collor de Melo foi eleito como o cassador de marajás e saiu naquelas condições.
Ricardo (...) O nosso primeiro livro político se chama ‘‘A arte de furtar’’ foi escrito no final do século XVII, aliás por um fantasma, não se sabe exatamente o autor e tem uma máxima dele que diz ‘‘cuidado com os que prometem nos livrar dos ladrões’’, esses costumam ser os piores ladrões.
Marco Aurélio Parto deste pressuposto, muito bem referendado pelo professor, para colocar que no Brasil nós temos uma cultura da corrupção... A corrupção está embrenhada em todos os setores da sociedade.
Folha O eleitor está mudando?
Marco Aurélio Sim. Em Ponta Grossa, há casos de eleitores que estão recusando cestas básicas e esse é um dado muito importante. Embora sejam carentes, é a questão do ‘‘não vendo meu voto’’...
Ricardo Mas este é um fenômeno geral que foi bem apontado, principalmente quando vemos a composição da Câmara dos Vereadores. A população carente tende a desenvolver uma fidelidade em relação à patronagem porque muitas vezes essa população ela tem uma índole honesta. E eles falam o seguinte: uma vez que um político prestou um determinado serviço, ofereceu determinados bens, abriu uma relação específica, eles acham que é desonesto se eles não votarem no político... Então a população tende a ter uma percepção de honestidade em relação os políticos, porque aí sim eles fazem esse tipo de política pré-moderna, política clientelista.
Maria Lucia ...é o voto que o coração mandar... se ele pode dar cestas básicas e conseguir essa identificação, porque a chave do sucesso na política é a identificação. O político que consegue a identificação com seu eleitorado é o que ganha, e eles conseguem isso de várias maneiras inclusive com as cestas básicas. Acredito que haja também esta honestidade, fidelidade – que aliás devia existir nos partidos políticos...
Folha O neto do ex-presidente da Assembléia, Anibal Khury, prega a continuidade do que o avô dele fazia. Como os senhores analisam esta questão do continuísmo ou da renovação? Existe voto familiar e voto étnico?
Ricardo Até isto foi objeto de estudo no meu doutorado, que é questão da própria composição e formação da classe dominante paranaense tradicional. São as conexões entre estruturas de parentesco e estruturas de poder político no Estado do Paraná, que na verdade não é um fenômeno desta eleição no ano 2000. É um fenomeno histórico que tem uma relação com a própria formação do Estado.
Maria Lucia As pessoas da elite vão buscar os votos na periferia também. Agora no caso específico de Curitiba há uma força muito grande destas etnias devido ao tipo de colonização. As colônias têm uma tendência em se fortalecer internamente para sobreviver no resto da sociedade. Aí se diz que Curitiba é uma sociedade fechada, os grupos se fecham, as famílias são muito marcadas. O Norte do Paraná é diferente. Mas no caso da família Belinati não diria que ela tem a mesma conotação da família tradicional de Curitiba ou em Minas onde isso é muito comum, onde fui criada. Na família Belinati as raízes se prendem mais ao nepotismo, uma questão muito comum no Brasil que é diferente de tradição.
Marco Aurélio Nós temos quatro cenários completamente diferentes no Paraná. Em Curitiba, onde há uma distensão oligárquica tradicional entre os Melo e Silva e os herdeiros do Ney Braga. Nós temos Londrina, e por ser uma área de ocupação recente, e até a oligarquia está se constituindo em outras bases, segundo a professora, no nepotismo. Mas o interessante é que não há um clã que se opõe frontalmente como há em Curitiba. E depois temos o Oeste e o Sudoeste, com a forte influência da forte imigração gaúcha, e que traz dois componentes novos: um é o transplante de grupos oligárquicos de lá para cá.
Ricardo O voto étnico que encontro em Curitiba é o do japonês, o vereador Rui Hara. Os outros enfrentam uma grande competitividade no mesmo grupo étnico, caso dos candidatos que queiram recorrer aos grupos poloneses. É muita gente, não é diferencial.
Folha Está mais difícil hoje com este clima arranjar votos no Paraná, qualquer que seja a origem do candidato?
Ricardo Acho que algumas questões já foram desenvolvidas. O Paraná se urbanizou com uma velocidade incrível. Em 1970, tínhamos aproximadamente 30% da população urbana, um índice bem inferior à média nacional. Chegamos no ano 2000 e o Paraná tem em torno de 75% de população urbana, um pouco inferior à média nacional. Mas ele se urbanizou com uma velocidade mais rápida nestas últimas décadas que a média nacional que já é elevada. Então nós temos um Paraná urbano, temos uma economia onde a agricultura cada vez representa menos, em termos de renda e oferta de trabalho. Uma economia urbana, industrial e principalmente de serviços. Tudo isso gera a presença de uma nova camada média e também quadros que recebem uma educação e qualificação superior.
Ricardo (...) Uma campanha como a do Vanhoni, que superou a do PMDB dos Requiões é um dado interessante que pode mostrar uma tendência de se buscar voto, embora o Vanhoni seja filho de um deputado de Paranaguá, o que confirma a regra. Outra coisa: nos últimos 15 anos o Paraná aprendeu, principalmente no plano regional, a compor alianças entre o Paraná tradicional e Londrina ao Norte. Foi o caso bem sucedido do bloco entre o Jaime Lerner e os Belinati, que garantiu a hegemonia na década de 90. Ou seja, não necessariamente precisa haver uma disputa como havia na década de 70 e 80 entre o Norte e o Paraná tradicional que foi aquela eleição de 82, marcada por essa rivalidade. O PMDB representava Londrina e o PDS o Ney Braga, o Paraná tradicional.
Folha Que influência têm os partidos políticos no processo?
Gregory Nas campanhas desaparece quase a questão partidária no Paraná, principalmente no interior. A propaganda esconde o nome do partido. Os partidos são fracos, não influem.
Maria Lucia Nós não temos partidos políticos. Eu chamaria isto de ‘‘clubes de interesses’’. São trampolins para ambições de poder...
Folha Então o candidato tem que mudar o discurso?
Maria Lucia Acho que eles têm que mudar, se reciclar porque esta percepção está maior. Os eleitores evoluíram, mas os candidatos não.
Marco Aurélio Acho que está mais difícil conseguir votos nesta eleição. Primeiro porque esta onda moralizadora ela pode ser passageira, mas ela existe.
Folha Estas eleições e as de 2002 vão possibilitar uma unificação do Estado, para que o Paraná possa se mostrar em situação nacional com expressividade?
Marco Aurélio Neste momento estão se redefinindo projetos locais. Creio que o resultado desta eleição se redefinirá um jogo de força que vai poder ou não construir ou assegurar o processo de fragmentação de uma identidade paranaense. Nós temos hoje nitidamente e não é tão antigo assim o projeto do Estado do Iguaçu e ainda se sentem as coisas dos ‘‘pés-vermelhos’’; Curitiba é obviamente um caso à parte. O Taniguchi vem de uma linhagem que se mantém no poder há quase 15 anos e é muito hábil nessa manutenção, ajudado até por um voluntarismo um tanto quanto exacerbado do representante maior da facção de oposição, o Requião às vezes entorta um pouco, é da personalidade dele, mas eu creio que se cria um novo quadro. Agora se esse quadro a curto prazo, ou seja as eleições de 2002, elas têm condições de se constituir uma unidade paranaense, sou muito cético em relação a isso. Acho que podemos ter passos fortes na constituição de tentar um projeto comum para a ação do Estado em nível nacional. Ao meu ver isto não configura necessariamente uma identidade paranaense. Acho quando tivermos um Paraná uniforme vai ser um Estado muito chato.
Folha Nós temos um Estado chato?
Marco Aurélio Eu ia citar Santa Catarina e Rio Grande do Sul, porque eu acho muito chato. A coisa do gauchismo até acho bonito, gosto da dança, da música, a comida é maravilhosa. Mas essa sensação de ‘‘pertenço a um grupo à parte’’, de exclusão que é histórica no Rio Grande do Sul e se entendeu a Santa Cataria, não acho que seja ruim em si, mas é muito chato. Para mim a ‘‘unanimidade tende a ser burra’’. Talvez porque nós sejamos centrados em nós mesmos. A extrema importância da imigração européia no Paraná tradicional, a forte importância da migração gaúcha no Sudoeste. E mesmo a tentativa de juntar aquele amálgama de Brasil que foi a colonização do Norte em algo dotado de identidades, ‘‘pé-vermelho’’ ou não mais de uma identidade, nos torne em algo mais introvertidos um pouco... Mas a minha questão fundo para esta questão é: até que ponto é necessária uma representatividade de ponta em nível nacional para o bem-estar de nossa população?
Ricardo Às vezes até ao contrário, quanto mais carente maior é a necessidade de se aproximar da Federação, é o caso da Bahia. Lá eles têm uma necessidade orgânica para aquinhoar parcelas do orçamento nacional. Já no Sul, o Paraná já tem condições econômicas que permitem que ele próprio faça o seu desenvolvimento.
Gregory Essa questão da unidade do Estado, acho complicado. Primeiro para o Estado do Paraná temos que ver a construção, unidade em cima de um território e em cima da população e a construção do Paraná historicamente está clara... São Paulo, os vicentistas, Quinta Comarca, o Paraná tradicional.

mockup