Brasília - A cinco meses das eleições, grande parte dos brasileiros tem outras preocupações e interesses. Segurança e Copa do Mundo, por exemplo. O voto a ser dado por mais de 40% dos eleitores só será definido a partir de 18 de agosto, quando começa a propaganda eleitoral no rádio e na televisão. E mais de 10% desses eleitores só vão escolher seus candidatos na véspera da eleição. Esse tem sido o perfil do eleitor brasileiro nas últimas três eleições, com pequenas variações, segundo o diretor-presidente do Instituto Vox Populi, João Francisco Meira.
Ansiosos pela eleição, diz Meira, estão apenas os políticos, a mídia e os institutos de pesquisa. O que não significa que o brasileiro não se interesse por eleição. Em entrevista à Agência Estado, ele fala sobre o comportamento do eleitor e diz que, hoje, o que existe é uma campanha ‘‘totalmente virtual’’.
Agência Estado - Os eleitores estão em clima de eleição ou a ansiedade é apenas dos políticos?
João Francisco Meira - Essa ansiedade não tem cabimento e é só nossa, dos políticos, dos homens da mídia, dos pesquisadores. Se olharmos os dados das pesquisas, veremos que temos aí, dependendo do critério, de 40% a 60% do eleitorado que não está ligando para a eleição.
AE - Não está ligando por que não quer saber de política ou por que não escolheu ainda seus candidatos?
Meira - Temos hoje uma campanha totalmente virtual, alimentada pelas oportunidades de mídia que o candidato tem, pelas pesquisas e o modo como são publicadas e analisadas na mídia. Isso faz com que dados mais simples sejam tidos como decisões ou tendências de comportamento cristalizado do eleitor, quando não são. É grande o número de eleitor indeciso, porque a população tem outras prioridades.
AE - O que, por exemplo?
Meira - A população está preocupada com a violência, a segurança de seu bairro, o problema da saúde pública. E antes da eleição tem a Copa do Mundo. Há uma agenda de demandas e necessidades colocada pelo público e uma agenda que o sistema político pretende colocar.
AE - É baixo interesse do brasileiro por eleições?
Meira - Se consideramos o número de eleitores que escolheu seu candidato, em torno de 46%, podemos dizer que é relativamente alto o interesse pela eleição. O restante não está interessado agora, mas acabará participando do processo na reta final.
AE - Quando o eleitor define seu voto?
Meira - Cerca de 60% vai se definir antes de começar a propaganda eleitoral, em meados de agosto. Para o eleitor comum, essa campanha ainda está longe, há uma dissonância cognitiva neste ponto; 40% dos eleitores vão se definir durante a campanha, dos quais 10% só na véspera do pleito.
AE - Tem sido assim nas eleições no Brasil? É diferente de outros países?
Meira - Na última eleição foi assim: quando começou a propaganda eleitoral no rádio e na televisão, 56% dos eleitores já declaravam estar com votos definidos; 34% deles se decidiram durante a campanha eleitoral e 11%, só na véspera. Eu conheço números equivalentes de Portugal, onde acompanhei de perto as eleições. Lá, 87% dos eleitores já estão com seus votos definidos quando começa a propaganda eleitoral e apenas 5% define-se durante este período.
AE> - Por que tantos brasileiros deixam a escolha para a última hora?
Meira - Acho que por razões estruturais e incidentais. Na estrutural, a principal delas é a falta de identidade partidária nítida no Brasil. Aqui, menos de 40% têm preferência partidária.
AE - Como vota o brasileiro?
Meira - Aqui a gente vota em pessoas, em imagens, em expectativas e em propostas feitas na campanha. De certa maneira, a gente vota nas estratégias de comunicação desenvolvidas pelos candidatos.

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