O ex-secretário-geral da Presidência Eduardo Jorge Caldas Pereira disse ontem desconhecer a origem de gravações divulgadas há cerca de um mês pela revista ‘‘Istoɒ’ com conversas atribuídas ao ex-juiz Nicolau dos Santos Neto, atualmente foragido. Durante cerca de quatro horas, EJ prestou depoimento ao delegado Ulisses Francisco Vieira Mendes, da Polícia Federal de São Paulo, que foi a Brasília para ouvir o ex-secretário. Nas gravações, Nicolau afirma que EJ ajudou a liberar verbas para a obra superfaturada do Fórum Trabalhista de São Paulo. Dos mais de R$ 231 milhões liberados para a obra, R$ 169 milhões foram desviados. O principal suspeito é o juiz foragido.
Foi aberto inquérito para apurar a origem das fitas porque a revista publicou que as gravações haviam sido feitas pela PF e pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), o que os dois órgãos negam. O delegado se recusou a comentar o depoimento de EJ. No final da tarde, a PF divulgou que o ex-secretário afirmou não saber quem é o autor das gravações no depoimento.
Segundo a PF, EJ também negou as acusações de tráfico de influência e repetiu que conversava com Nicolau sobre o perfil de juízes classistas que seriam indicados para o TRT-SP. O advogado de EJ, José Gerardo Grossi, que acompanhou o depoimento, também se negou a divulgar as declarações de seu cliente à Polícia. Grossi disse ter feito um acordo com o delegado da Polícia Federal para evitar que o teor do depoimento se tornasse público.
‘‘Vou cumprir o acordo. A melhor coisa para a investigação é que ela tramite em segredo’’, disse Grossi. EJ entrou na PF pela porta da frente, mas saiu pela garagem, para evitar a imprensa. Foi seguido até uma casa de parentes no Lago Sul, mas os jornalistas foram barrados no portão.
Anteontem, o delegado Mendes ouviu o depoimento de Fábio Simão, assessor do senador cassado Luiz Estevão (PMDB-DF). Simão é suspeito de ter gravado as conversas do ex-juiz. Em depoimento que durou cerca de uma hora e meia, Simão disse não ter participado das gravações e se recusou a fornecer amostras de sua voz.
A PF pretendia comparar a voz de Simão com a do interlocutor do suposto juiz Nicolau. Mesmo que Simão tivesse autorizado a coleta de sua voz, ainda assim a PF não teria obtido êxito. É que a revista ‘‘Istoɒ’ se recusou a entregar as gravações, argumentando que isso acabaria expondo a pessoa que entregou as fitas à revista.
O delegado Mendes prorrogará, provavelmente por mais um mês, o prazo do inquérito das investigações sobre as gravações. O prazo terminaria na próxima semana. O advogado de EJ disse que o depoimento de seu cliente foi ‘‘calmo e tranquilo’’. Ele argumentou que, por sugestão do delegado, o depoimento será mantido sob sigilo, provavelmente até a próxima semana. Grossi observou ainda que não há previsão para um novo depoimento de Jorge à PF. ‘‘Mas, obviamente, se aparecer algum fato novo, o delegado terá de ouvir novamente todo mundo’’, disse.

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