Eike Batista entra na lista vermelha da Interpol
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
Fábio Serapião, Mateus Coutinho e Fausto Macedo<br>Agência Estado 

São Paulo - Os procuradores da República que integram a força-tarefa da Operação Eficiência, deflagrada nessa quinta-feira (26), afirmam que o empresário Eike Batista é o "autor intelectual do ato de corrupção do então governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral". A Polícia Federal (PF) não encontrou Eike na manhã dessa quinta-feira em sua residência, no Rio. Eike foi formalmente declarado foragido e o seu nome foi incluído na difusão vermelha da Interpol (Polícia Internacional) - índex dos mais procurados em todo o mundo. A Interpol funciona, na prática, como uma rede que mantém conexão com as polícias de quase 200 países. Os nomes dos procurados abastecem o cadastro da Interpol.
A ordem de prisão contra Eike foi decretada pelo juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal do Rio, no âmbito da Operação Eficiência - desdobramento da Calicute e da Lava Jato que mira o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB). Com base nas delações premiadas de dois operadores do mercado financeiro, Renato e Marcelo Chebar, a Polícia Federal e a Procuradoria da República descobriram remessas de US$ 100 milhões para o exterior em favor do peemedebista. Eike foi o "autor intelectual" da transferência de US$ 16,5 milhões, transação que envolveu conta do empresário no Panamá e remessa final para o Uruguai.
A prisão de Eike foi decretada no dia 13. A PF acredita que o empresário pode ter saído do País usando passaporte alemão. O delegado Tacio Muzzi, da PF, disse que não trabalha com a hipótese de que houve vazamento da Operação Eficiência, abrindo caminho para a fuga de Eike.
A defesa do empresário informou que ele ficou "surpreso" com a ordem de prisão.
O advogado Sérgio Bermudes, que defende o empresário nas causas cíveis, afirmou que Eike está entre Nova York e Miami e viajou aos EUA para cuidar de um processo relacionado ao bloqueio de US$ 63 milhões em bens pela Justiça das Ilhas Cayman. O advogado disse que Eike vai se apresentar, mas não disse quando isso vai ocorrer.
Cabral já está preso, desde novembro de 2016, alvo da Operação Calicute, primeira etapa da Eficiência e desdobramento da Lava Jato no Rio.
EMPRESA DE FACHADA
Os procuradores da República que subscrevem o pedido de prisão de Eike afirmam, ainda, que ele tentou obstruir a Justiça. Sustentam que Eike usou empresa de fachada, Arcádia, para repassar a propina ao ex-governador.
E revelam a participação de Flávio Godinho, sócio de Eike e vice-presidente de futebol do Flamengo, que também teve a prisão decretada na Operação Eficiência. "(Eike) Autor do negócio simulado da Arcádia e tendo ainda determinado a prática de atos de obstrução da investigação em 2015 é o pivô de todo este imenso pagamento de propina US$ 16,5 milhões e artífice mor dessa sofisticada operação de lavagem pela Arcádia. E mais, já em 2015, determinou a Flávio Godinho a prática de ato de obstrução da investigação indicando fortemente sua recalcitrância na prática de atos criminosos de corrupção e lavagem. Não bastasse isso, há fortes elementos nos autos indicando que recalcitra na prática de lavar dinheiro a partir de negócios simulados."
Os procuradores fazem menção ao depoimento que Eike prestou ao Ministério Público Federal em Curitiba - base da Lava Jato - em que confessou pagamentos a Mônica Moura, mulher de João Santana - marqueteiro das campanhas presidenciais de Lula (2006) e Dilma (2010/2014), no valor de R$ 5 milhões.
No pedido de prisão preventiva de Eike, os procuradores anotam, ainda, que ele mentiu ao dizer que nunca pagou propinas a Sérgio Cabral. Uma operação sob suspeita revela que ele repassou pelo menos R$ 1 milhão para o escritório da advogada Adriana Ancelmo, mulher do peemedebista - ela também foi presa na Operação Calicute.
Os procuradores estão convencidos do "maior envolvimento (de Eike) com a organização criminosa". "Note que, com a informação obtida da Caixa Econômica Federal de que 'não houve indicação, pela Caixa, na qualidade de administradora de fundos de investimentos, do escritório de advocacia Coelho e Ancelmo Advogados para a EBX, nem para qualquer outra operação', as alegações do representado Eike Batista caem por terra." "Aliás, ainda do âmbito da investigação conduzida pelos procuradores da força-tarefa da Lava Jato no Paraná, o representado Eike Batista também já havia se apresentado a pretexto de esclarecer o suposto repasse irregular da quantia de R$ 5 milhões relacionado a pessoas ali acusadas, Mônica Moura, João Santana e Guido Mantega, através de conta bancária no TAG Bank (Panamá) e mantida pela Golden Rock Foundation (Panamá), empresa subsidiária da Centennial Asset Mining Fund LLC (Estados Unidos), de sua propriedade."
O relato de Eike, porém, foi desmentido pelos delatores da Operação Eficiência, os irmãos Renato e Marcelo Chebar, operadores do mercado financeiro. "Entretanto, depoimentos recentemente prestados pelos colaboradores Renato Chebar e Marcelo Chebar, acompanhados de documentos e da devolução/repatriação de dezenas de milhões de dólares mantidos no exterior pela organização criminosa, parecem contrariar as afirmativas de Eike Batista."
Renato Chebar disse que em 2010 foi procurado por aliados próximos do então governador Cabral - Carlos Miranda e Wilson Carlos - "sendo informado que deveria viabilizar o recebimento de US$ 16,5 milhões devidos por Eike Batista a Sérgio Cabral, cuja natureza desconhece".
O delator contou que "se dirigiu, ainda no ano de 2010, ao escritório de Eike Batista, localizado na Praia do Flamengo, acompanhado por Wilson Carlos, e foram recebidos por Flávio Godinho, responsável por toda engenharia financeira para viabilizar o pagamento".


