Nove meses depois de ter virado o protagonista de uma das principais crises políticas do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, o ex-secretário-geral da Presidência Eduardo Jorge Caldas Pereira quebra o silêncio e parte para o ataque contra seus principais acusadores.
Em duas horas de entrevista exclusiva à Agência Estado, ele chama os procuradores da República Luiz Francisco Souza e Guilherme Schelb de ‘‘mentirosos’’ e anuncia que está disposto a voltar a depor no Senado. ‘‘As investigações estão cheias de provas a meu favor e nenhuma contra’’, disse.
Eduardo Jorge confirma que foi chantageado para defender seu então amigo, o ex-senador Luiz Estevão (PMDB-DF), que ia ter o mandato cassado: foi avisado sobre a existência de uma fita comprometedora, que seria divulgada se ele não agisse. ‘‘Não agi, não fiz nada.’’ Na ocasião, a revista ‘‘Istoɒ’ divulgou gravação em que o juiz aposentado Nicolau dos Santos Neto dizia que Eduardo Jorge atuava para influir em decisões trabalhistas que afetavam o Plano Real.
O ex-secretário não esconde sua decepção com integrantes do governo, dentro do próprio Palácio do Planalto, que ‘‘agiram de forma covarde’’ contra ele nos últimos meses. A queixa não se estende ao presidente Fernando Henrique: ‘‘Ele foi magistral.’’ Esta é a entrevista de Eduardo Jorge.
AE Pode-se dizer que o senhor foi abandonado pelo governo e pelo seu partido, o PSDB?
EDUARDO JORGE CALDAS PEREIRA O governo não é uma coisa única, o governo é composto de pessoas diversas. Acho que o presidente cumpriu a função dele de forma magistral. O presidente procurou ser neutro não interferindo na investigação. Até mesmo, creio eu, porque ele sabia da minha inocência. Mas no meu entender, pessoas no governo agiram de forma covarde e até maldosa.
AE E os tucanos? Foram omissos?
EJ Acho que a maioria do partido se omitiu. Alguns deles justificam dizendo que, na hora da tempestade, a imprensa não estava interessada em ouvir. Outros dizem que falaram e que suas palavras não tiveram repercussão. Mas depois que a imprensa publicou queixa minha, tenho tido mais solidariedade do partido.
AE - A principal acusação contra o senhor foi sobre o seu suposto envolvimento com o juiz Nicolau dos Santos Neto para efetivar a fraude na obra do Fórum Trabalhista de São Paulo. O que alimentou a notícia durante tanto tempo?
EJ A manipulação política que alguns procuradores fizeram. São procuradores que, claramente, têm engajamento político e, até recentemente, partidário, em alguns casos. Eles se esforçaram para que a mídia viesse a publicar com frequência e de forma escandalosa fatos que já eram conhecidos e nos quais eles não tinham nenhum elemento substancial. Pior: os procuradores concentraram as investigações nos telefonemas do juiz para mim e se esqueceram das ligações, por exemplo, para os deputados do PT, que eles sabem, mas que nunca mencionaram. E foram deputados que, logo em seguida, aprovaram verbas.
AE O senhor ainda tem amizade com o ex-senador Luiz Estevão?
EJ Nunca mais tive contato com Luiz Estevão.
AE O senhor foi pressionado para defender Luiz Estevão?
EJ No meu depoimento na PF, eu disse que recebi um aviso de que teria uma fita e que eu deveria agir porque senão essa fita seria mostrada. Não levei isso em consideração porque sei que não podia ter nenhuma fita que fosse comprometedora para mim. Então não agi, não fiz nada. Viajei.
AE Esse aviso veio de alguém ligado a Luiz Estevão?
EJ Veio de alguém ligado ao Luiz Estevão. Foi o assessor dele, Nilton Rebelo.
AE Essa pressão seria para atingir o presidente? Ou o alvo era o senhor?
EJ O alvo é o governo.

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