Folha - O que a Igreja Católica prepara para os fiéis neste período que antecede as eleições?
Dom Albano Cavallin - A gente vive também o plano nacional. Nós temos uma central muito presente que é a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), que desde o tempo do regime militar tem sido uma grande instância política para o Brasil. Sem orgulho, a gente poderia dizer que foi quase a única voz e vez para o povo se manifestar, tendo em vista a censura que ocorria. Ela deu um grande passo quando lançou uma Campanha da Fraternidade que foi sobre política, onde apareceram princípios, por exemplo, que a política não é coisa suja, é uma ciência, uma arte e uma virtude do bem comum. Para nós religiosos, a caridade, o amor a Deus e ao próximo são a base. E a maneira de concretizar o amor ao próximo é o partido político que faz o seu projeto, concretamente, e que tem dotação financeira para todas essas coisas. Então nós temos uma função de inspiração e conscientização, ao passo que o partido tem a possibilidade da concretização, a política partidária.
Folha - Concretamente, para os padres e religiosos que são candidatos, quais são as recomendações?
Dom Albano - Tivemos uma reunião no Conselho dos Padres e eu vou mandar uma carta para os padres dizendo que se algum religioso, ou alguém que tenha o trabalho chamado de ministro da eucaristia, que serve ao lado do padre no altar, que ele não seja afastado se candidato. Nós tínhamos antigamente um projeto de que a pessoa devia ser afastada nos três meses anterior às eleições. Hoje nós dizemos que não precisa afastar, a não ser, como acontece várias vezes, que ele mesmo, por uma delicadeza, de consciência, peça para ser afastado. Porque nem todas as comunidades tem igual educação política, pensa que ele está lá para se mostrar, para fazer propaganda. Mas nós dissemos, política nós não separamos de religião. Se ele está servindo a comunidade eucarística, ele também se apresente como um candidato político.
Folha - Os casos de padres ou religiosos candidatos são expressivos?
Dom Albano - Muitos, são muitos casos. Não sei o número exato, mas hoje (sexta-feira), por exemplo, já recebi um deles, ontem (quinta-feira) um outro. Então eu estou conversando com eles que a política não é coisa suja, ainda que haja pessoas difíceis na política. Mas não é por eles que nós vamos julgar. A política é a ciência, a arte e a virtude do bem comum.
Folha - Essa seria então a possição da CNBB em relação ao candidato padre ou religioso?
Dom Albano - Nós consideramos o padre um homem a serviço da comunidade. Vamos fazer uma comparação bem simples: quando um filho pergunta para o pai, ‘‘você gosta mais de mim ou de meu irmão?’’ O pai sempre responde, ‘‘dos dois’’. Então é a mesma coisa. O que você gosta mais, deste ou daquele. Então não é aconselhável de modo nenhum no presente, ainda que no tempo do império tenha havido grandes estadistas padres, a gente não aconselha as duas coisas ao mesmo tempo. Há alguns documentos pedindo que se eles se candidatarem, que neste caso se afastem do exercício da comunidade.
Folha - O bispo de Jundiaí, Dom Amauri Castanho, divulgou o apoio de sua Diocese para 25 candidatos. O senhor concorda com o posicionamento dele? O senhor faria o mesmo em sua Arquidiocese?
Dom Albano - O dom Amauri é uma personalidade muito corajosa e muito definida. Se ele chegou à conclusão na sua região, é porque a atitude foi analisada. Porque nós somos, ao contrário do que parece, profundamente autônomos. Nós obedecemos ao Papa, mas o Papa nos respeita como coisa de Deus que aquele bispo dirija sua diocesa. Quer dizer, ele pode fazer isso, mas ele terá que dar as explicações todas para os seus irmãos. Não se pode dizer que todos os bispos do Brasil vão seguir o estilo de Dom Amauri.
Folha - Quanto à presença do candidato padre ou religioso junto à comunidade católica?
Dom Albano - Por exemplo, se ele chegar numa reunião, se quiser dizer alguma coisa, diga. Mas não que a gente apoia aquelas coisas. Eu prefiro que o cristão, que nós dizemos leigo - não é ligado a parte religiosa - desenvolva a sua análise e oxalá nós católicos possamos apoiar. Não por ser católico só. O que nós pedimos é que seja competente. Atenção: não é católico, não é propaganda de política de um setor. É preciso que o melhor candidato primeiro seja um bom político, e se for católico, ajuda um pouco.
Folha - Quando o senhor diz que a política não é coisa suja, muitos eleitores provavelmente tenham dúvidas.
Dom Albano - Com alguma razão. Quando ele viu falcatruas, desvio de verbas, seca e todas essas coisas, o brasileiro tem certo direito de ser desconfiado. Mas isso não nos deve levar a uma posição pessimista e também injusta. A política é uma coisa difícil, é uma ciência. E eu tenho encontrado políticos capazes, esclarecidos, com uma visão sócio-política e econômica de Brasil muito boa.
Folha - Os evangélicos buscam fortalecimento na religião e na política, principalmente através das igrejas neopentecostais. Como o senhor analisa esse tema?
Dom Albano - Eu li a revista Época, li tudo sobre o trabalho do bispo Edir Macedo, vi as porcentagens de candidatos que eles têm em relação aos católicos. Eles estão tentando. Talvez isso já tenha acontecido na Igreja Católica há 400 anos atrás, quando o papado julgava, com boa intenção, que deveria salvar o mundo com princípios religiosos. Eu hoje vejo que há posições autônomas e que é preciso respeitar o político honesto, no seu papel. Ele pode até ter posições contrárias às minhas enquanto bispo. O fato de ser bispo não me autoriza a legislar, a falar autoritativamente, sobre tudo o que é da política. O que eu posso falar é sobre as questões humanitárias, ou defesa da ética. Este é o meu setor. Neste setor é que eu chamo a atenção do político, em questões como o aborto, o homossexualismo em determinada circunstância e uma série de outras questões.
Folha - Os evangélicos estariam fazendo política para fortalecer a religião ou seria o contrário?
Dom Alvano - Se me perguntarem se eu tenho amigos pastores, digo que eu tenho e que eles são muito equilibrados nesta matéria. Tudo está indicando que no setor de Edir Macedo, e não pelo fato de ser evangélico, mas pelo fato de ser uma pessoa muito discutível, até financeiramente, é outra coisa.
Folha - Como pode ser entendida a Teologia da Libertação, atualmente?
Dom Albano - A Teologia da Libertação foi uma grande descobertas da Igreja Latino-Americana. Ela traduziu em termos simples, e vamos até usar palavra caboclas, um grande princípio da Igreja que é a vida de Jesus e que foi resumida no seguinte: ele veio para fazer morte ou pecado e as consequências do pecado e vida para Deus. Então tudo que é sinal de morte, falcatrua, falta de educação, falta de saúde é sinal de morte. São expressões cunhadas que nós temos. E tudo o que é educação, tudo o que é ajuda, partilha, é sinal de vida. E a Teologia da Libertação chamou atenção para este trabalho, que a religião, além de falar do céu, terá que falar do concreto. Aliás a Bíblia favorece que Jesus disse que no dia do Juízo vai julgar pelo bem que fizemos ou deixamos de fazer. Então daí surgiram as grandes campanhas da fraternidade, que já somam 34, sobre trabalho, violência, menor, negro, política, educação e todas as coisas. Alguns radiciais transformaram este princípio da Teologia da Libertação quase que num partido político. Isto atrapalhou a aceitação dos outros. A Teologia orientou muito a caminhada da Igreja no Brasil. Hoje, quando os partidos assumiram o que a Igreja teve que fazer numa determinada época um pouco sozinha, porque era quase a única instituição que podia falar um pouco mais libertamente, então estrategicamente a Igreja retirou-se do cenário político deixando que os políticos cumpram a sua missão. É até um pouco perigoso a Igreja querer dar normas políticas que não é exatamente o seu papel. O seu papel é ética, é conscientização, educação.
Folha - O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) costuma ser vinculado à Igreja. É justo?
Dom Albano - Eu sou veterano na matéria, porque eu morei em Guarapuava, onde havia 44 conflitos de terra. Eu ia nos mais variados e via diferenciações. Uns mais organizados, outros iniciais, um ou outro ingênuo. É claro que como bispo eu tenho que defender a propriedade particular, que é uma tese da Igreja Católica. Não se brinca com direito e com propriedade particular. Porém, meditando em relação a outros países, sobretudo de onde vieram meus avós, a Itália, digo que eles vieram com fome e os que ficaram lá vivem agora num regime de uma reforma agrária. Porém, no Brasil, a reforma agrária tá abortada, e porque foi abortada agora nós sofremos todas as consequências desse aborto. Então o fato de pessoas praticarem determinadas ações para chamar a atenção do governo, eu culpo muito mais o governo do que as outras pessoas que possam praticar este ou aquele ato que pode ser reprovado nesta pessoa, naquela circunstância.
Folha - É consequência de um passado político?
Dom Albano - Como muita coisa no Brasil, muita consequência também. O menor de rua não é um problema para mim. Aprendi isso com um colega, dom Luciano Mendes, que diz que o menor de rua é solução. Parece contraditória a expressão dizer que o menor de rua é uma solução. Então ele diz que o menor de rua é uma atitude que faz com que a criança dê uns pontapés no traseiro de sua mãe que se chama pátria brasileira, para dizer, gritar, que alguma coisa que ela fez não está certo. De tal maneira que a criança teve que cair nesta situação, que seria a falta de escola, de saúde, de emprego, mais bem organizado, não quero ser utopista.
Folha á- Qual é a sua mensagem para o eleitor católico?
Dom Albano - Os católicos se unam, deixem o egoísmo. Conversando com um professor, ele disse que eram 12 candidatos professores a Câmara de Londrina nas últimas eleições municipais e nenhum foi eleito, por falta de unidade. Agora os professores estão fazendo uma aliança suprapartidária da categoria para defender a classe. Tudo indica que vão fazer o partido da educação, unindo todo a classe dos professores, os pais e os alunos, para a defesa da educação no Brasil. Achei lindo, gostei.Aos 68 anos de idade e às vésperas de ser homenageado por estar completando 25 anos como bispo - 15 anos em Curitiba e 10 anos entre Guarapuava e Londrina - o arcebispo de Londrina, Dom Albano Cavallin, inicia o trabalho de conscientização de cerca de 700 mil católicos de 15 municípios do Norte do Paraná para as eleições majoritárias e proporcionais de 1998. A homenagem será no dia 30 deste mês, no Ginásio de Esportes Moringão, em Londrina. A ação da arquidiocese junto aos fiéis, para o debate de temas políticos, é prática já tradicional da Igreja Católica. Mas, desta vez, com um avanço: padres ou religiosos candidatos, que precisavam se afastar do altar três meses antes das eleições, agora podem continuar exercendo o ofício religioso em suas comunidades. Dom Albano Cavallin, entretanto, defende que embora o afastamento tenha deixado de ser uma exigência, é recomendável que, por conta própria, o candidato padre deixe a batina durante a campanha eleitoral. ‘‘Ainda que no tempo do império tenha havido grandes estadistas padres, a gente não aconselha as duas coisas ao mesmo tempo’’, diz em entrevista à Folha.
‘É preciso respeitar o político honesto’
Milton DóriaEscolha políticaDom Albano Cavallin: ‘‘É preciso que o melhor candidato primeiro seja um bom político, independente de religião’’Para Dom Albano, a Igreja Católica deu um grande passo quando lançou uma Campanha da Fraternidade sobre política

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