Seul - Esquece, amigo, a extravagância de um Mundial com duas caras. Esquece os cartolas que tramam, abertamente, o mal do futebol. Esquece os mutilados de recentes batalhas. Esquece que a seleção do Brasil anda meio esquecida. Esquece o que dói e o que já não dói. Porque é chegada a hora de celebrar o prazer que nos dá a Copa do Mundo, cuja bola é mais redonda. No drible que aturde o instante. No passe que deita pontes entre almas da mesma cor. Do chute que aponta o fim do caminho.
Noite de angústia na abertura da Copa. A seleção da França esbarrou nos pés implacáveis de uma retranca muito bem montada pela seleção de Senegal. Privada de seu astro maior, o meia-atacante Zidane, a equipe campeã não exibiu o padrão que lhe deu o título em 98. Noite de glória para a seleção de Senegal. Coração de raça fresca. Futebol de contra-ataque: na defesa, 10 infatigáveis gazelas. No ataque, apenas um jogador. Mas um que valia por cinco. O velocíssimo Diouf. Ele acabaria encarnando com sua equipe guerreira um célebre provérbio africano que diz: ‘‘todo dia, quando o sol nasce na África, a gazela sabe que tem que correr muito, senão acaba morrendo nas garras do leão.’’
A seleção de Senegal nem esperou que o sol nascesse. Quando o leão acordou, ela já estava longe: 1 a 0.
A emoção da partida empolgou a multidão coreana. Tudo faz crer que o público anfitrião pretende dar aos jogos da Copa um clima realmente festivo. A Coréia professa três religiões: o taoísmo, o confucionismo e o budismo. Todas três trazidas pelos chineses. Além delas, a alma coreana cultua o chamanismo. Pelo visto, o Mundial pode estar trazendo a este povo uma nova e explosiva crença religiosa que é o futebol. Uma grande paixão no reino da contemplação.
Os males do brasil
O Brasil, como já se sabe, não figura entre os candidatos ao título mundial. Trata-se de um consenso que começa na bolsa de apostas de Londres e toma corpo no seio da própria seleção nacional. Ronaldinho – acha saudável que assim seja. ‘‘Não somos favoritos?’’, pergunta o craque, reagindo, com uma ponta de malícia: ‘‘Tanto melhor que nos considerem coitadinhos...’’
É de supor que Scolari esteja usando o menosprezo do resto do mundo pra meter em brios a sua tropa. No esporte, especialmente no futebol, as sandálias da humildade costumam levar a melhor contra o alto da soberba. Esse pecado capital tem feito a ruína de muito fogueteiro no futebol mundial.
Confesso que até hoje a seleção de Scolari não me cativou. Nem na Copa América, nem nas Eliminatórias, nem nos amistosos sem graça que andou disputando já na reta final da Copa. Ainda assim, creio no talento do jogador brasileiro. E de gente boa de bola a seleção está surpreendentemente bem servida. Uma questão, porém, tem me intrigado. O time titular não engrena. Fez jogo duro contra todas as equipes que enfrentou, ultimamente. Aí, vem o segundo tempo, o homem tira os medalhas. Entram Denílson, Edílson, Juninho. Pode haver futebol mais anárquico que o desses irresistíveis peladeiros? Eles encarnam o futebol brasileiro.
Vamos preparar o coração pra um tempo de provação e outro de libertação. É a minha mais ardente esperança.
O desfalque da copa
Os meus leitores se lembram de uma nota que escrevi, chamando este Mundial de ‘a Copa dos Mutilados’. O dia-a-dia das seleções, tanto na Coréia como no Japão, tem sido um martírio generalizado. Os treinos mais suaves provocam baixas inquietantes nas principais equipes européias. A Inglaterra finge que acredita na integral recuperação de Beckham. Como imaginar que um jogador, parado há dois meses, terá fôlego pra suportar o ritmo vertiginoso de uma chave que tem Suécia, Nigéria e Argentina?
Uma breve lista de astros no estaleiro não pode esquecer também nomes como o goleiro Canizares, da Espanha, que nem está aqui, os ingleses Gerrard, Murphy e Dyer (este com alguma chance de jogar na segunda fase), o atacante Raúl, da Espanha, que está em tratamento. A equipe alemã deixou seis titulares na retaguarda, todos machucados.
Aparentemente, a seleção brasileira está livre de problemas físicos. Mas é bom lembrar que Ronaldinho ainda está em recuperação muscular e que o joelho de Rivaldo não anda nada católico. Faltou citar outro craque de grande quilate chamado Luiz Figo que, todo mundo sabe, vai jogar a Copa à custa de infiltrações no tornozelo direito.
O espetáculo da Copa sofre uma profunda perda de qualidade com a ausência de jogadores do mais alto nível técnico. Nada menos de 20 atacantes de expressão ou já estão rifados ou vão jogar no sacrifício. Tudo, amigos, por culpa de um calendário monstruoso que obrigou a elite do futebol mundial a jogar mais de 50 partidas em menos de seis meses.

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