Doze presidentes se reúnem em Brasília
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 30 de agosto de 2000
Ana Fernández France Presse De Brasília 
Com o conflito colombiano como pano de fundo (leia na página 14), os doze presidentes sul-americanos se reunirão hoje e amanhã em Brasília, para falar do futuro da região que passa pela integração física e comercial dentro de um marco democrático. A infra-estrutura, a democracia, o comércio, o narcotráfico e crimes afins, bem como a informação, o conhecimento e a tecnologia são os assuntos sobre os quais os doze líderes articularão suas posições nas escassas 24 horas que irão permanecer em Brasília, a convite do presidente Fernando Henrique.
Com sentido prático e realista, a agenda dos presidentes conta com apenas cinco temas. Por seu peso e relevância, são questões que hoje emergem naturalmente em qualquer debate sobre os rumos que se abrem para o espaço sul-americano em suas dimensões política e econômica, explica o chanceler brasileiro Luis Felipe Lampreia, que não esconde que a Colômbia pode ter uma menção honrosa nesta reunião.
A decisão do presidente Andrés Pastrana de conduzir, com apoio econômico e militar dos Estados Unidos, o Plano Colômbia para erradicar os narcocultivos, forçar a paz com as guerrilhas e reativar a economia, preocupa aos países da região que temem uma internacionalização do conflito.
Entre os temas da agenda, destaca-se a infra-estrutura da região, a integração por rodovias, ferrovias, hidrovias, redes de transmissão elétrica, gasodutos ou telecomunicações. Este será o único dos cinco capítulos da Declaração de Brasília, que os presidentes devem assinar ao final do encontro, que estará acompanhado de um Plano de Ação para a Integração da Infra-estrutura Regional na América para os próximos dez anos, embora permaneça a dúvida sobre os mais de US$ 200 bilhões necessários para a conclusão desse plano.
O capítulo do comércio também destaca o compromisso dos presidentes para estabelecer um espaço de livre comércio antes de 1º de janeiro de 2002, entre os dois blocos da região: o Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, com Chile e Bolívia como membros associados) e a Comunidade Andina de Nações (CAN, composta por Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela, da qual também participam Chile, Guiana e Suriname, até agora de costas para a região).
Os presidentes também se comprometerão para que a democracia seja a condição necessária para um esforço regional coordenado, segundo Lampreia. Uma região açoitada pelos problemas do cultivo e do tráfico de drogas também exige um esforço concentrado para vencê-los. Nesse sentido, a cúpula de Brasília dará um grande impulso à coordenação dessa luta, o mesmo que será necessário para que a informação e a tecnologia cheguem a toda a população.
A redemocratização da América do Sul em alguns países mais que outros foi o ponto de partida dessa iniciativa das autoridades brasileiras. A integração ainda mais profunda que haveremos de construir será fruto da continuidade e fiança democrática, ressalta Lampreia.
Durante as últimas semanas, embaixadores e diplomatas dos doze países que vêm a Brasília Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela, além do anfitrião trabalharam freneticamente para elaborar a Declaração de Brasília, um decálogo de compromissos que fechará com chave de ouro esta reunião histórica.
Tudo está preparado pelos anfitriões para que hoje, a partir das 17h30, no Palácio do Itamaraty, os doze presidentes acompanhados de seus respectivos chanceleres, e amanhã, a partir das 9 horas (em maratônicas sessões de trabalho acompanhadas de um jantar e um almoço, sendo o último no Palácio da Alvorada) coloquem a primeira pedra do futuro integrado da região.


