Tudo como dantes

Partidos, como se sabe, são pessoas jurídicas de direito privado. Nessa condição, a despeito de custarem aos cofres públicos muitos milhões de reais anualmente entre as cotas do fundo partidário (R$ 301 milhões em 2011) e a renúncia fiscal decorrente da propaganda gratuita no rádio e na televisão, são donos dos próprios narizes.
Em tese, tomam suas decisões internas sem a obrigatoriedade de prestar contas à sociedade, adequando os respectivos custos e benefícios às suas conveniências.
Às vezes dá certo, às vezes não. Quando expulsou José Roberto Arruda depois do flagrante do vídeo em que o então governador recebia dinheiro do operador do esquema de corrupção montado no governo do Distrito Federal, o DEM calculou que com isso reduziria seu prejuízo político.
Não adiantou. A situação do partido já era difícil, só fez piorar e o caso, definitivamente batizado como ‘‘mensalão do DEM’’, contribuiu decisivamente para a derrocada.
Pesou mais a opinião que o público formara ao longo dos anos sobre o partido e sua fragilidade política para reagir.
Com o PT, ocorreu o oposto: teve a direção nacional e a imagem devastadas por denúncias de corrupção, mas recuperou-se tão bem que hoje pode dar-se ao desfrute de ignorar possíveis danos na opinião pública, decretar unilateralmente a absolvição da figura símbolo do mensalão e expor o poder de José Dirceu, elegendo presidente um oficial de seu quartel general.
Quando o PT decide que é chegada a hora de reabilitar Delúbio Soares, o ex-tesoureiro que, como disse a senadora Marta Suplicy ao defender sua reintegração, ‘‘segurou tudo calado’’, trata o assunto unicamente sob a perspectiva do partido, cujo interesse é ‘‘zerar’’ as penalidades e fortalecer sua unidade a fim de consolidar sua hegemonia no governo Dilma Rousseff e enfrentar o processo a ser julgado no Supremo Tribunal Federal.
Aos dirigentes parece pouco importar se vai repercutir mal a concessão de tal recompensa ao silêncio do homem que jurou ser o único responsável pelo esquema de arrecadação e distribuição de dinheiro tido como ‘‘criminoso’’ pela Procuradoria-Geral da República.
Ao contrário, pelas declarações feitas, consideram que, quanto mais cedo, melhor. O cenário, de fato, lhes é favorável.
Não há eleições a não ser em 2012, quando só então o Supremo deve começar a examinar o processo do mensalão.
A oposição encontra-se desmobilizada; problemas decorrentes do agravamento da inflação ainda não tomaram a cena de modo a alterar a confiança no governo, que está com popularidade alta e recolhendo novas adesões naquela parcela da sociedade que não gostava de Lula, mas anda gostando muito de Dilma.
Certamente o PT contabilizou perdas e ganhos e concluiu que o momento permite manobras radicais. Ao mesmo tempo recebe Delúbio e põe Rui Falcão na presidência.
Linha de frente da concepção aguerrida de José Dirceu de fazer política, Falcão ficou no ‘‘limbo’’ durante a campanha presidencial de 2010 por suspeita de ter exposto o esquema de montagens de dossiês contra adversários no comitê em Brasília.
Esses dois movimentos, a reabilitação de Delúbio e a eleição de Falcão, reconduzem o PT à rota anterior ao baque do mensalão. Sinalizam que o partido se sente forte e inimputável perante o eleitorado. Livre, leve e solto para abandonar a promessa de que, daquele ano de 2005 para frente, tudo seria diferente.

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