Coisa de amador
Celebrado como profissional no ramo da ocupação de espaços políticos e administrativos, o PMDB não tem feito jus à fama nessa fase de formação do ministério de Dilma Rousseff Até agora tem perdido todas as tentativas de pressionar o governo e de impressionar o público com suas jogadas
A cúpula do partido deu-se conta disso e ontem já se movimentava nervosamente para recuperar os prejuízos provocados de um lado pela ''dureza'' dos petistas que formam o núcleo do poder e, de outro, pela fragilidade da propagada unidade do partido em torno da defesa de seus interesses
Danos obviamente passageiros Não obstante, suficientes para evidenciar que o partido não é assim tão competente nesse jogo nem está unido como quer fazer crer desde que conseguiu sentar na vice-presidência da República o presidente da legenda, Michel Temer, contra a vontade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que preferia ver Henrique Meirelles no posto
O plano de atuação da direção partidária para essa fase era fazer de Temer o interlocutor junto à presidente eleita, que seria o único autorizado a levar a ela os nomes dos ''eleitos'' por consenso para ocupar as cinco pastas pretendidas
Logo nos primeiros acordes, entretanto, a sinfonia desafinou: o líder da bancada da Câmara, Henrique Eduardo Alves, propagandeou a criação de um grande bloco de partidos ditos aliados, de repercussão bastante negativa no governo Soou ao que efetivamente era: chantagem para negociar espaços na Esplanada e no Congresso
Temer alegou que nada sabia, Alves confirmou que agira por iniciativa própria, mas continuou na mesma linha sem ser admoestado à altura do ato Deixou o comandante ''vendido'' e ficou tudo por isso mesmo
Em seguida, quando começaram de fato as negociações com a presidente, Temer esteve com Dilma que, no entanto, no mesmo dia recebeu os senadores José Sarney e Renan Calheiros para negociar a parte que lhes cabia no latifúndio O comandante, de novo, foi solapado em sua autoridade de interlocutor único
No dia seguinte, um integrante de sua equipe de comando e candidato ao posto de ministro, Moreira Franco, deu entrevista ao jornal ''O Globo'' reclamando que Temer estava sendo ''enfraquecido'' pelo governo Se ele passou esse recibo com autorização, foi ruim Se Moreira falou à revelia de Temer, foi pior: revelou desarticulação
No caso do convite seguido de ''desconvite'' ao secretário de Saúde do Rio de Janeiro, Sergio Côrtes, para o Ministério da Saúde dividiu-se o desastre: entre o comando do partido, pois ficou patente a existência de mais uma interlocução à parte e o governador Sérgio Cabral pela precipitação do anúncio sem cumprir o ritual de articulação com o PMDB
Ou talvez não tenha se precipitado, mas simplesmente dado margem ao fogo ''amigo'' de petistas e peemedebistas Políticos de expressão regional, pouco afeitos aos códigos da capital federal, são vulneráveis a esses revezes
Em maio de 2008, quando Marina Silva deixou o Ministério do Meio Ambiente, Carlos Minc - escolhido na ''cota'' de Cabral - também amargou uma suspensão temporária pelo mesmo motivo: o governador comemorou e o convidado saiu falando de seus planos como se autonomia tivesse
No caso da direção do PMDB, não se pode alegar falta de intimidade com as regras não escritas Ao contrário: o partido domina a linguagem como ninguém Mas, desta vez e por ora, o partido parece vítima de outro fenômeno: a voracidade ante a fartura do banquete
Nem de graça
Se, numa hipótese remota, o DEM resolvesse mudar sua direção para entregar o comando ao prefeito de São Paulo, dificilmente Gilberto Kassab recuaria na decisão de se transferir para o PMDB no início do ano
Conforme correligionários, não lhe apetece a administração de massa falida Além de não ser politicamente vantajoso para nenhum dos dois dos gurus de Kassab - José Serra e Jorge Bornhausen - deixar o PMDB de São Paulo à deriva, disponível à influência do PT ou do governador eleito Geraldo Alckmin

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