DORA KRAMER
Militância digital
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva convida quem quiser para suas entrevistas individuais ou coletivas Do mesmo modo, vê, ouve ou lê o que é dito quem quer
Portanto, o encontro que reuniu alguns autores de blogs para entrevistar o presidente da República não se pode dizer que tenha pecado pelo excesso de governismo Inclusive porque ninguém é obrigado a ter senso crítico em relação a pessoas, objetos ou situações que lhe sabem bem ao paladar, à visão, ao tato e ao olfato
O Palácio do Planalto e Lula resolveram retribuir os serviços prestados por um grupo de ''blogueiros progressistas'' (o pressuposto é que os demais sejam reacionários), ativistas da campanha de Dilma Rousseff e não seria de esperar outra atitude que não a da benevolência
De todo modo, chamou atenção o entusiasmo Na saudação ao ''primeiro presidente do Brasil a receber representantes da blogosfera'' - como se não fosse ele o primeiro a conviver com a modalidade -, no silêncio reverencial diante de respostas quilométricas e/ou incongruentes, nas gargalhadas cúmplices, na docilidade nas repetidas referências à ''imprensa golpista'' ou ''velha mídia''
Nas entrevistas tradicionais, em que não há seleção ideológica, não se vê, por exemplo, o entrevistado precisar corrigir o entrevistador que estranha o fato de as indicações ao Supremo Tribunal Federal não terem deixado a Corte com ''a cara do governo Lula''
''Graças a Deus o Supremo não ficou com a cara do governo'', respondeu o presidente a um rapaz que se identificou como representante de um ''blog jurídico'', ensinando-lhe, em seguida, algo sobre a independência dos poderes inerente à República
Fora isso, os autodenominados ''blogueiros progressistas'' passaram batidos por repetidas afirmações de Lula de que não fazia ideia das realizações de seu governo em diversas áreas: comunicações, legislação trabalhista e direitos humanos
O presidente, depois de oito anos de governo, disse que só teria a real noção de suas realizações depois que ''desencarnasse'' da Presidência Pôde dizer sem ser contestado que o ex-diretor da Abin, Paulo Lacerda, deixou o governo e a PF porque ''estava na hora de sair'' A ninguém ocorreu lembrar-lhe que Paulo Lacerda foi mandado para Portugal em meio ao escândalo dos grampos telefônicos ilegais, por sugestão do ministro da Defesa, Nelson Jobim
Quando afirmou que a sociedade ao controle social da mídia, defendendo iniciativas como a Ancinav e o Conselho Nacional de Jornalismo, não precisou explicar a razão de seu governo ter recuado de todas elas Inclusive retirando propostas semelhantes do Plano Nacional de Direitos Humanos 3
Dissertou sobre enormes resistências à reforma política sem que lhe perguntassem quais são elas Não foi questionado sobre a razão de ter aprofundado velhas práticas contra as quais agora promete lutar ao ''desencarnar'' da Presidência
Esteve à vontade para ressaltar sua altivez em reuniões internacionais (permanecer sentado, enquanto os outros chefes de Estado se levantavam para receber George W Bush), e relatar a amargura por ligações feitas entre o desastre da TAM e a crise aérea de 2006/2007
Tão à vontade que, ao repetir que a agressão de petistas ao então candidato José Serra foi uma ''farsa'' - na abertura havia provocado muitos risos ao ''ameaçar'' os blogueiros com ''bolinhas de papel'' - deu-se ao desfrute do machismo consentido Na ocasião, contou, resolveu responder no lugar de Dilma, comparando ao adversário ao goleiro chileno Rojas, ''porque ela é mulher e não entende nada de futebol''
Cada um fala com quem quer, mas respeito, inclusive aos fatos, é bom e todo mundo gosta
Erratas
Na coluna de ontem havia dois erros: o nome do ministro do Supremo Tribunal Federal é José Antonio, e não José Roberto, Toffoli; o próximo integrante da corte seria o 9º e não o 8º indicado por Lula Dos ministros em atividade o presidente nomeou seis Carlos Alberto Direito morreu no exercício da função e Eros Grau se aposentou





