DORA KRAMER
Todo gesto político presta-se a variadas leituras, de acordo com os interesses em jogo. Com a decisão do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, de deixar o governador de São Paulo, José Serra, desde já sozinho no cenário oposicionista da sucessão presidencial, não foi diferente. Os aliados de Aécio dizem que com isso ele reassume o comando do próprio destino, deixando de ficar refém do calendário de Serra. Os correligionários do paulista interpretam o gesto como um sinal de desapego e saúdam a ''nobreza'' do companheiro de partido.
A direção do PSDB enxerga agora espaço aberto para tentar concretizar o sonho da chapa puro-sangue, juntando São Paulo a Minas para ''fechar'' o Sudeste, acoplar os eleitorados dos dois maiores colégios eleitorais do País e, assim, enfrentar com vantagem o favoritismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Norte e Nordeste. O maior inimigo de Serra, o deputado Ciro Gomes, vê reforçada a ''necessidade'' de concorrer à Presidência e aproveita para pôr Aécio na moldura de vítima de ladina conspiração de ''setores serristas'' da imprensa.
O PMDB sorri de soslaio. Não abre o jogo, mas fica nitidamente mais confortável na relação delicada com o PT que, enquanto perdurasse a teórica indefinição, se apresentava como a única saída para o aliado. O Palácio do Planalto festeja a ''boa notícia'' e reedita a versão de que, na avaliação do presidente Lula, Aécio seria um candidato mais difícil, por causa de seu ''potencial de crescimento''.
O PT sofistica os argumentos. Diz que a retirada de Aécio facilita a vida de Dilma Rousseff em Minas, como quem insinua que o governador deixará espaço aberto para o adversário no Estado. Só não explica qual seria o interesse de Aécio Neves em preferir continuar na oposição, sendo mais um senador entre tantos outros, filiado a um partido fadado a ficar cada vez mais fraco.
Uma outra possibilidade que Aécio descartaria pela leitura do PT, de que sua saída da disputa significa ausência de compromisso com o projeto do PSDB de retomar a Presidência da República, seria a de ser vice-presidente acumulando ministério da área política e funções de representação diplomática às quais seu perfil é afeito.
Isso para quê? Para ser malcriado com o PSDB ou como forma de vingança por não ter sido ele o escolhido? Os fatos apontam para explicações mais racionais: o partido, as pesquisas e a determinação de José Serra em disputar a Presidência.
Serra é o preferido do PSDB desde 2006. Em 2002, Serra ''forçou a barra'' da candidatura e pagou o preço de uma cristianização mitigada, bem ao estilo tucano. Mas, na eleição seguinte, em primeiro nas pesquisas, seria o nome escolhido. Não fosse o receio de ser acusado de ''rachar'' São Paulo, por causa da postulação de Geraldo Alckmin, e a certeza de que, sem a base de lançamento ''fechada'', perderia para Lula. Na ocasião, os cardeais diziam que Serra só não seria candidato se não quisesse. A regra continuou valendo e Aécio sempre soube disso.
Serra ficou exultante com a decisão anunciada um pouco antes do prazo previsto, em janeiro? Provavelmente não, dado que a embromação da, como disse Aécio em sua carta ao partido, ''falsa candidatura'' o favorecia. Sem o ''acerto'' entre ele e Aécio, Serra não poderia se pronunciar sobre a própria candidatura.





