Donos de corretoras serão acareados
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de abril de 1997
Agência Estado 
BRASÍLIA - A CPI dos Títulos Públicos retoma esta semana os depoimentos. Dando cumprimento à decisão dos senadores de só realizar sessões públicas para buscar informações relevantes, o relator da CPI, senador Roberto Requião (PMDB-PR), convocou para quarta-feira uma acareação entre os donos das corretoras Split, Enrico Piccioto, da IBF Factoring, Ibrahim Borges Filho, e da Boasafra, Fausto Solano Pereira.
Os três, que já foram interrogados anteriormente, são considerados hoje pela CPI, junto com a corretora Negocial, peças-chave na montagem da corrente da felicidade - o esquema de lavagem dos lucros obtidos com a compra de títulos públicos de Estados e municípios, emitidos em 1995 e 1996 supostamente para pagar precatórios (dívidas judiciais).
Segundo o Banco Central, a IBF movimentou R$ 126 milhões - boa parte deles transferida, por meio de contas de laranjas, para doleiros na fronteira do Brasil com o Paraguai. Quando depôs na CPI, há mais de um mês, o dono da IBF, Ibrahim Borges Filho, colocou-se como modesto intermediário da Split. Apesar de ter movimentado milhões, disse ter recebido apenas R$ 80 mil pelos serviços.
Interrogado logo seguida, o dono da Split, Enrico Piccioto, negou conhecer Ibrahim Borges, apesar de a CPI ter depoimentos de seus funcionários, colhidos pela Polícia Federal, relatando a constante troca de cheques entre as duas empresas. Para tentar esclarecer isso, a CPI também convocou para a acareação de quarta-feira dois contínuos da Split, Alex dos Santos e Sandro Cipriano.
Na primeira vez em que depôs, Piccioto disse ainda só ter ouvido falar de precatórios depois que a CPI começou a funcionar. Mas a CPI já tem convicção de foi a Split que organizou todo o esquema de lavagem do lucro do esquema em todo o País para doleiros no Paraguai. Para chegar a esta conclusão, a comissão apóia-se na confissão de Ibrahim Borges, no aparecimento da Split em quase todas as correntes de compra e venda e no rastreameno de seus telefonemas - são milhares de ligações para doleiros.
Já Fausto Solano vai ser interrogado novamente sobre a incrível história que contou a CPI no mês passado para justificar o depósito de um cheque de R$ 9,7 milhões da IBF Factoring em sua conta pessoal: em outubro de 1996, ele pediu ao seu advogado para retirar R$ 1,8 milhão nas Ilhas Cayman, mas, em vez disso, recebeu no dia 24 um cheque a maior, enviado por um senhor Renê, que ele não sabe quem é.
Desse cheque, Solano disse ter descontado seu R$ 1,8 milhão e depois pulverizado os R$ 7,9 milhões restantes entre 54 beneficiários, listados pelo misterioso Renê.


