Dona de casa de 103 anos vai às urnas
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de setembro de 2000
Edinelson Alves De Londrina Especial para a Folha 
Pela lei eleitoral em vigor, dona Guilhermina Resende Vieira poderia ter deixado de votar há 33 anos. Mas, aos 103 anos, essa mineira de Santo Antônio Machado, localidade próxima a cidade de Alfenas, garante que vai comparecer às urnas hoje. Para quem tem mais de 70 anos, o voto é facultativo.
Moradora de uma casa de três cômodos no Jardim Califórnia (zona leste), em Londrina, a dona de casa nem se recorda quando votou pela primeira vez. Mas faz questão de dizer: Desde quando tirei os documentos para casar, nunca mais deixei de votar. Mulher simples, que passou grande parte da vida trabalhando na roça, ela acha importante participar da eleição. A gente sempre vota pensando na melhoria das coisas. Ensinei isso aos meus filhos e netos.
Mas, com a experiência de quem nasceu poucos anos depois da libertação dos escravos, dona Guilhermina lamenta que, apesar das muitas campanhas eleitorais que presenciou carregadas de promessas, ao longo de sua vida, a situação do País não melhorou. A carestia das coisas nunca tem controle. Antes era muito fácil criar os filhos e comprar os alimentos. As pessoas eram mais dadas e não tinha tanta violência como hoje, compara.
Ela conta que nunca foi ativa participante da política porque a prioridade era criar os 16 filhos, mas recorda que os comícios e as campanhas eleitorais eram bem diferentes. Não havia tanto barulho e gente na rua como hoje. Eu decidi votar, nessa eleição, para um menino que é candidato a vereador, mas vieram algumas pessoas e colocaram o nome de outros candidatos na cerca e na árvore da frente do quintal. Isso não é correto, é preciso respeitar a posição de cada um, reclama.
Conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) há 6.049.699 eleitores acima de 70 anos no País. No Paraná são 335.647, dos quais 17.470 em Londrina.
Para o médico geriatra João Batista Lima Filho, de Cornélio Procópio, representante da Pastoral da Terceira Idade e da Criança junto ao Conselho Nacional de Assistência Social, a maioria dos eleitores idosos deverá, a exemplo de dona Guilhermina, comparecer às urnas. Eles cresceram e envelheceram votando e a eleição faz parte da vida deles. Também é importante ressaltar que os idosos enfrentaram as ditaduras do período Vargas e depois a ditadura militar. Isso tudo tem uma forte influência, explica.
Para João Batista, a prática do idoso continuar votando mesmo depois de vencido o período de obrigatoriedade se enquadra na teoria do gerontólogo espanhol Ajuria Guerra, sobre o Envelhecer como viver. Isso representa um direito, a essência da cidadania através da participação. É um voto consciente, autêntico e desinteressado de qualquer favor.
Especialista que viaja o País proferindo palestras sobre a terceira idade, o médico de Cornélio lamenta a falta de visão e até o desinteresse dos políticos em relação às propostas voltadas para os idosos. Infelizmente, a maioria dos candidatos se aproxima dos eleitores da terceira idade apenas para oferecer algum tipo de apoio voltado ao assistencialismo. Eles ignoram as prioridades desse público, critica.
João Batista exemplifica: dos mais de 5 mil municípios brasileiros, nem 100 implantaram o Conselho do Idoso. A entidade é tão importante para uma comunidade como o Conselho de Saúde, compara. Para o médico, o fundamental seria que os candidatos assumissem compromissos com a terceira idade como, por exemplo, a criação de ambulatório odontológico específico, rebaixamento das calçadas e sinaleiros mais demorados em pontos estratégicos de cruzamentos.


