O doleiro Walderez Almeida Lacerda, de Goiânia (GO), afirmou que apenas ‘‘intermediou’’ a venda de US$ 200 mil entre o médico goiano Anis Rassi e outros doleiros de São Paulo, em maio do ano passado. O pagamento dos dólares, no valor total de R$ 340 mil, foi transferido a partir de Londrina, via depósito bancário, e a origem do recurso são licitações fraudulentas na extinta Comurb (atual CMTU). No início deste ano, a Justiça londrinense bloqueou R$ 230 mil que restavam na conta do médico, a pedido do Ministério Público (MP), que rastreou o dinheiro desviado.
A Folha localizou o doleiro ontem de manhã, por telefone, em sua empresa – uma concessionária de veículos em Goiânia. Mas ele se recusou a dar entrevista. ‘‘Tudo o que eu tinha para falar está numa declaração prestada em cartório’’, limitou-se a dizer. A declaração foi feita no dia 10 de março deste ano e registrada no 5º Tabelionato de Notas de Goiânia. Nela, o doleiro diz que foi procurado por um dos filhos de Rassi para negociar os US$ 200 mil – cujo valor seria aplicado na ampliação de um hospital.
‘‘Que esclarece o declarante, a sua participação foi de entrar em contato com as pessoas em São Paulo, a pedido do Dr. Anis Rassi, consumando o negócio nos termos que foi proposto; que, finalmente, o declarante ratifica a sua exclusiva participação no repasse da proposta, não sendo de sua responsabilidade a consumação do negócio e a transferência do respectivo numerário dado em pagamento’’, diz trecho do documento, a que a Folha teve acesso e possui cópia.
Outro detalhe que consta da declaração de Lacerda é o número do telefone dos doleiros de São Paulo (citados apenas como ‘‘Flora’’ e ‘‘Élvio’’) que teriam comprado os US$ 200 mil. A Folha ligou para o número e verificou que de fato o telefone pertence a uma agência de câmbio. Além disso, a proprietária atendeu pelo mesmo nome de Flora – embora posteriormente disse se chamar ‘‘Flórida’’ e ser conhecida por ‘‘Flor’’
Flora, no entanto, negou que conhecesse Anis Rassi ou Walderez Lacerda. Disse também que não comprou os US$ 200 mil do médico, como declarou o doleiro. Para ela, tudo não passa de uma coincidência. ‘‘Já vi isso no jornal (falando sobre a notícia publicada na edição de ontem da Folha), mas não é daqui. Nem conheço essa pessoa (Lacerda). Não saiu nada da minha conta nem entrou nada’’, afirmou. Ela disse que amigos avisaram sobre a notícia publicada na Folha. ‘‘Acharam que era eu.’’
Sobre ‘‘Élvio’’, que teria comprado os dólares com ela, Flora garantiu que não conhece, não é sócia nem tem funcionário com esse nome. ‘‘Não conheço nem nunca ouvi falar. Tem muita gente no mercado (de câmbio)’’, justificou. Ela afirmou ainda que não mantém negócios em Londrina, embora tenha parentes na cidade.
Em relação ao fato do telefone da empresa dela constar da declaração de Lacerda, Flora afirmou que comprou o terminal há apenas ‘‘quatro ou seis meses’’ na Bolsa de Telefones de São Paulo. A Folha entrou em contato com a Bolsa de Telefones e também com o Balcão de Telefones da capital paulista. Ambas as empresas negaram que tenham negociado o terminal da empresa de câmbio nos últimos dez anos. ‘‘Se tivesse, constaria do nosso cadastro’’, afirmou uma funcionária da Bolsa.

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