São Paulo e Curitiba - O operador financeiro Alberto Youssef, pivô da Lava Jato, financiou uma das campanhas eleitorais do agora maior aliado político de Sergio Moro, juiz símbolo da operação. Duas empresas de Youssef em 1998 pagaram R$ 21 mil (o equivalente a R$ 88 mil em valores atualizados) à campanha a senador de Alvaro Dias, hoje no Podemos e à época no PSDB.

As informações estão na prestação de contas de Dias entregue naquele ano à Justiça Eleitoral no Paraná. As doações se referem a horas de voo em jatinhos que Youssef cedeu ao então candidato. Youssef, 54, foi condenado por Moro na Lava Jato em penas que somam mais de 120 anos de prisão e chamado em uma das sentenças de "criminoso profissional". Porém deixou o regime fechado em 2016, graças a um acordo de delação.

Em uma CPI sobre a Petrobras, em 2015, quando estava preso por ordem de Moro, Youssef falou sobre as doações após pergunta feita por um deputado petista. "Na época, eu fiz a campanha do senador Alvaro Dias, e parte dessas horas voadas foram pagas pelo [Luis] Paolicchi, que foi secretário de Fazenda da Prefeitura de Maringá, e parte foram doações mesmo que eu fiz das horas voadas", disse ele.

O ex-secretário Paolicchi foi figura central na virada do século em um escândalo de desvios na Prefeitura de Maringá –coincidentemente a cidade natal de Moro. Paolicchi acusou políticos do Estado de terem suas campanhas abastecidas com os recursos públicos desviados do município. Além do atual senador do Podemos, foram mencionados, entre outros, o então governador Jaime Lerner (que morreu neste ano) e Ricardo Barros (PP), hoje líder do governo Jair Bolsonaro na Câmara.

O prefeito investigado era Jairo Gianoto, eleito pelo PSDB. "O prefeito chamou o Alberto Youssef e pediu para deixar um avião à disposição do senador. E depois, quando acabou a campanha, eu até levei um susto quando veio a conta para pagar", disse o ex-secretário em depoimento, citando a cifra de R$ 200 mil. As afirmações foram publicadas em reportagem do jornal Folha de S.Paulo em 2001. A Youssef Câmbio era justamente uma das empresas mencionadas.

Procurado pela reportagem, Alvaro Dias encaminhou documento do Ministério Público paranaense que afirma que, após diligências e depoimentos, procedimento relacionado a esse relato foi arquivado em 2004 por falta de provas. O elo de sua campanha nos anos 1990 com Youssef tem sido resgatado por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais. No último dia 12, o presidente, que disputa o eleitorado à direita com Moro, publicou vídeo de um apoiador que reproduz trecho do depoimento do doleiro à CPI.

Moro se filiou ao Podemos em novembro e articula sua candidatura à Presidência no próximo ano. Youssef foi um dos personagens mais marcantes da trajetória de Moro como magistrado. Nos anos 2000, o então juiz mandou prender o operador no âmbito do caso Banestado, um mega esquema de evasão de divisas por meio do extinto banco do estado do Paraná.

Youssef firmou naquela época um primeiro acordo de colaboração, feito com aval de Moro em 2003, quando esse tipo de compromisso ainda era novidade no Brasil.

Procurado pela reportagem, o senador Alvaro Dias disse que toda a campanha de 1998 foi feita dentro da legislação e teve as contas aprovadas pela Justiça Eleitoral. "Foram prestadas 12 horas de voo para que a equipe de filmagem pudesse se deslocar e realizar seu trabalho", disse ele, em nota à reportagem.

Disse que não conhecia Alberto Youssef naquela época, embora entenda que "naquele momento não havia nenhum fato que o desabonasse". A campanha ocorreu antes da eclosão do caso Banestado.

Sobre as declarações do ex-secretário Paolicchi, o senador disse que não o conhecia e mostrou o documento da Promotoria sobre o arquivamento do caso. "Não houve, de maneira alguma, repasse de recursos da municipalidade, logo é falsa a acusação de que teria contratado horas de voo com recursos da prefeitura."

Alvaro Dias também falou à reportagem a respeito do vídeo compartilhado por Bolsonaro. Disse que sua equipe jurídica está analisando o caso e tomará providências cabíveis. Afirmou também que o youtuber responsável se esconde no exterior para "criar conteúdos falsos". A reportagem procurou o doleiro Alberto Youssef, que disse que não iria falar sobre o caso. O ex-secretário Luís Paolicchi foi assassinado em 2011, e três pessoas foram condenadas por homicídio em júri em 2017. A reportagem não conseguiu localizar os advogados do ex-prefeito Gianoto. O deputado Ricardo Barros afirmou à reportagem que as acusações feitas nos anos 2000 pelo ex-secretário eram absurdas e estimuladas "pelo ativismo político do Ministério Público".

A reportagem também procurou o ex-juiz Sergio Moro para comentar a situação envolvendo seu aliado político .Ele disse, por meio de sua assessoria, que desconhece qualquer depoimento de Alberto Youssef que tenha "implicado diretamente o senador Alvaro Dias em algum ilícito".

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