Doleiro e Costa serão interrogados hoje em Curitiba
Curitiba - Pela primeira vez desde a deflagração da Operação Lava Jato, em março, os dois principais personagens do mega esquema de lavagem de dinheiro desbaratado pela Polícia Federal (PF) e pela força-tarefa do Ministério Público Federal (MPF) serão interrogados pela Justiça sobre os supostos desvios de recursos públicos de obras da Petrobras na refinaria Abreu e Lima, no município de Ipojuca, em Pernambuco. Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da estatal petrolífera, que inclusive já teve seu acordo de delação premiada homologado; e o doleiro Alberto Youssef, que já está prestando depoimentos em troca de uma possível redução de pena; serão ouvidos hoje à tarde, pelo juiz Sérgio Moro, na audiência de interrogatórios que será realizada na Justiça Federal do Paraná, em Curitiba.
As informações repassadas por Costa e aquelas que ainda podem surgir dos depoimentos de Youssef causaram alvoroço nos bastidores políticos de Brasília. Representantes de partidos da base aliada e da oposição que fazem parte da CPMI da Petrobras travaram uma verdadeira batalha nas últimas semanas. Os primeiros reforçando o discurso de que o conteúdo dos depoimentos de Costa são sigilosos e que, portanto, não poderiam ser divulgados. Os demais lutaram para ter acesso a trechos da delação fechada com o MPF antes das eleições, protocolando inclusive requerimentos no Supremo Tribunal Federal (STF), sem sucesso.
Entretanto, com o segundo turno presidencial à vista, a briga de foice entre aliados e oposicionistas para conseguirem a lista de nomes citados pelo ex-diretor da Petrobras deve se acirrar.
Como assinou a delação premiada, Paulo Roberto Costa terá que responder todas as perguntas referentes ao caso, entretanto, não poderá falar sobre a participação de políticos no esquema porque esta parte cabe ao STF, responsável pelos casos que envolvam pessoas com foro privilegiado. Por outro lado, é possível que o ex-diretor esclareça a atuação de grandes empreiteiras no esquema, assim como a participação de outros diretores da Petrobras.
Será a primeira vez que Costa vai falar diretamente com o juiz depois de ter fechado a delação. Ele participou de outras audiências da Lava Jato, mas sempre como ouvinte. Ele deixou a carceragem da PF em Curitiba há uma semana e foi para o Rio de Janeiro, onde cumpre prisão domiciliar. Está usando uma tornozeleira eletrônica fornecida para pessoas que cumprem pena em regime semiaberto, além de estar com segurança reforçada por agentes.
Já Alberto Youssef, que ainda está depondo na PF a fim de obter benefícios, deve permanecer calado durante o interrogatório até para não atrapalhar o processo que está em andamento. Ele já foi interrogado em outras duas ações penais da Lava Jato. Na primeira, referente a evasão fraudulenta de US$ 444,6 milhões mediante contratos de câmbio para pagamentos de importações fictícias, utilizando empresas de fachada ou em nome de pessoas interpostas, ele permaneceu calado. Na segunda audiência o doleiro negou envolvimento em lavagem de dinheiro proveniente de tráfico internacional de drogas. Nesta segunda denúncia, inclusive, o MPF pediu a absolvição do londrinense por falta de provas. Esta ação penal está em fase de alegações finais e deve ter uma sentença do juiz até a metade do próximo mês.
Abreu e Lima
Segundo o MPF, os desvios de recursos da construção da refinaria no Nordeste ocorreram por meio de contratos superfaturados, negociados com empresas que prestaram serviços à Petrobras entre 2009 e 2014. A obra inicialmente orçada em R$ 2,5 bilhões custou mais de R$ 20 bilhões. Conforme a denúncia, "Youssef e Costa seriam os líderes do grupo criminoso e seriam os principais responsáveis pela lavagem de dinheiro dos recursos desviados. Os demais teriam participação segundo as variadas etapas da lavagem". Também serão interrogados hoje outros oito réus que faziam parte do esquema: Leonardo Meirelles, Leandro Meirelles, Antonio Almeida da Silva, Waldomiro de Oliveira, Murilo Tena Barrios, Márcio Andrade Bonilho, Esdra de Arantes Ferreira e Pedro Argese Júnior.
Defesas
O advogado de Paulo Roberto Costa, João de Baldaque Mestieri, esteve reunido com seu cliente, no Rio de Janeiro, durante todo o final de semana. Ele assumiu o caso na semana passada, no lugar de Beatriz Cata Pretta, que fechou o acordo de delação premiada. A assessoria de Mestieri, entretanto, informou que não conseguiu localizar o advogado para comentar sobre a audiência de hoje. Questionado sobre a expectativa para os interrogatórios, o advogado de Youssef, Antonio Figueiredo Basto, apenas disse que está concentrado na defesa de seu cliente e não teceu comentários sobre a delação de Costa. "Vamos aguardar para ver o que será dito durante a audiência", simplificou. (R.C.J.)





