Doleira revela caso com Youssef e canta em depoimento a CPI
Curitiba No depoimento mais inusitado e movimentado durante a visita da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras a Curitiba, Nelma Mitsue Kodama, também conhecida como a "dama" do mercado negro de câmbio, falou por aproximadamente três horas aos deputados. Além de querer esclarecer que não escondia 200 mil euros na calcinha no momento de sua prisão, no ano passado, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, a doleira chegou a cantar um trecho da música "Amada Amante", de Roberto Carlos, ao lembrar de sua relação com Alberto Youssef, e afirmou que está tentando fechar um acordo de colaboração com as autoridades. Ao ser presa no ano passado ela já havia tentado fazer uma delação, sem sucesso.
Como está pleiteando concluir o acordo, em grande parte dos questionamentos feitos pelos deputados ela preferiu ficar em silêncio, principalmente quando perguntada sobre informações de seus clientes, quanto teria movimentado em operações ilícitas do mercado e se ela teria conhecimento do envolvimento de políticos. Nelma, que utilizava os "codinomes" de Greta Garbo, Cameron Diaz e Angelina Jolie durante suas operações ilegais, foi condenada a 18 anos de prisão em regime fechado e já cumpre a pena na Penitenciária Feminina de Piraquara (PFP). Ela ainda é réu em outra ação penal da Lava Jato que ainda não teve a sentença proferida.
"Estou pleiteando junto às autoridades um termo de colaboração. Tenho a consciência de que não está correta minha conduta. O meu papel de compra de venda de moedas era mais ligado a importações. Na minha concepção achava que não estava fazendo nada de errado", afirmou Nelma.
Ao ser questionada pelo relator da Comissão, Luiz Sérgio (PT-RJ), a doleira afirmou se sentir injustiçada no processo em relação ao tamanho da pena aplicada a ela na primeira condenação. "Tenho consciência dos meus crimes, mas me sinto injustiçada pela dosimetria que o juiz me condenou. Leonardo Meirelles (laranja de Youssef) fechou 3.900 contratos de câmbio, enviando para fora do País mais de US$ 380 milhões, enquanto eu fui condenada a 18 anos. Isso é injusto", disse.
A dama do mercado informou que estava indo a Milão quando foi detida, e que não estava fugindo. "O dinheiro não estava na calcinha como afirmaram, vamos esclarecer isso. Estava nos bolsos de trás da calça", destacou, ao levantar e, de costas para o auditório, enfiar as mãos do bolsos da calça para demonstrar como escondeu as notas de euros. "Algumas pessoas apareceram com dinheiro na cueca, então tinha que ter alguma mulher com dinheiro na calcinha, só pode ser essa a explicação para terem falado isso", ironizou.
Questionada se ela era amante de Alberto Youssef, Nelma explicou que entre 2000 e 2009 os dois viveram um relacionamento prolongado e chegaram a viver juntos, como marido e mulher, mesmo que não estivessem oficialmente casados. "Amante engloba tudo, amante é esposa, amiga. Tem até música do Roberto Carlos: 'Amada, amante..'", falou a doleira que seguiu cantarolando, inclusive incentivando o auditório a cantar junto.
Neste mesmo momento, Nelma foi interrompida pelo presidente da CPI, Hugo Motta (PMDB-PB), criticando o comportamento dela. "Senhora, não estamos num teatro. Se detenha a responder as perguntas, respeite o Congresso Nacional", pontuou.
No decorrer de seu depoimento, Nelma negou ainda que seja uma das maiores doleiras do País e que o problema de operações financeiras ilegais é muito maior do que se imagina e que envolvem diversos setores: corretoras, instituições financeiras e, inclusive o Banco Central.
Perguntada por Motta se o sistema financeiro nacional é falho ou se as instituições financeiras admitem as falhas nas operações terem lucros, a doleira afirmou: "As duas coisas. É rentável para o banco, então é impossível que os bancos não saibam. Tenho documentos que provam que bancos sabiam, e que alguns gerentes inclusive tinham empresas. É um sistema falho, corrupto e eu, sinceramente, tenho vergonha de dizer que sou doleira, de ter participado e achado que não fazia nada errado". (R.C.J.)





