Além de ser apontado como líder político da organização criminosa que agia na Receita Estadual de Londrina achacando empresários para ignorar fraudes tributárias, o empresário Luiz Abi Antoun é acusado pelo Ministério Público (MP) em denúncia protocolada ontem, relativa à segunda fase da operação Publicano, de ter praticado dois fatos de corrupção passiva tributária, ou seja, teria exigido (e recebido) propina para que duas empresas não fossem fiscalizadas ou autuadas. Mesmo sem ter cargo público – embora seja apontado como uma "eminência parda" do governador Beto Richa (PSDB), de que é parente distante – Abi, de fato, segundo a denúncia, mandava na Receita Estadual, conforme apontam as investigações do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).
Na denúncia, os promotores Jorge Barreto da Costa, Renato de Lima Castro e Leila Schimiti relatam que os valores teriam sido exigidos por auditores e, de fato, recebidos por Abi, mas não detalham que destino o empresário teria dado aos recursos. Porém, tais valores seriam para a campanha de reeleição do governador, mencionado na denúncia apenas em notas de rodapé. Em depoimentos ao MP, o auditor Luiz Antonio de Souza, réu colaborador por meio de acordo de delação premiada, relatou que nos dois casos o dinheiro seria usado na campanha eleitoral.
No primeiro caso, um empresário de Apucarana teria contribuído com R$ 800 mil (parcelados em 10 vezes, entre fevereiro e dezembro de 2014, aproximadamente) para campanha tucana. Segundo a denúncia, com isso, os auditores – então coordenados por Márcio de Albuquerque Lima, ex-delegado em Londrina, permitiram que a empresa inserisse créditos fictícios de ICMS em valores elevados. Em depoimento, Souza menciona o nome do fiscal que "busca o dinheiro mensalmente com o empresário e entregava a Márcio, que, por sua vez, entregava a Abi". Depois da operação de inserção de créditos fictícios, a empresa seria extinta "porque esse tipo de operação deixa rastros", completou o delator.
No segundo caso, Souza não menciona que valor teria sido arrecadado para a campanha, mas diz que o empresário do setor de madeiras fez o pagamento diretamente a Luiz Pontes de Oliveira Filho, que, de acordo com a denúncia, "era, à época, filiado ao PSDB, e um dos responsáveis pela arrecadação de campanha do candidato Beto Richa". Souza, em depoimento, afirma que o valor "foi entregue de Luiz Pontes diretamente para Abi, não tendo passado por Márcio".

"RELAÇÃO INCESTUOSA"
Na denúncia, os promotores também relatam, minuciosamente, a importância de Abi para a "segurança e estabilidade" da organização criminosa. O empresário, com amplo acesso ao governo, dava "proteção política" ao grupo criminoso. Abi "detinha um significativo papel político junto aos órgãos do governo, no sentido de indicar seu amigo pessoal e importante membro da organização criminosa, Márcio de Albuquerque Lima, primeiro, para o cargo de delegado-chefe da 8ª Delegacia Regional de Londrina, e, posteriormente, para o cargo de Inspetor Geral de Fiscalização da Receita Estadual do Paraná, sendo certo que, neste período, houve grande intensificação dos esquemas de corrupção na Receita Estadual", escreveram.
Os promotores também mencionam o fato de Abi ter reservado hotel para o atual secretário estadual de Fazenda, Mauro Ricardo Costa, em 9 de dezembro do ano passado, quando ainda não se sabia que Beto Richa o escolheria para a pasta. Porém, Abi já tinha conhecimento, já que a reserva estava em nome do "futuro secretário da Fazenda do Paraná". Mais que isso, a estadia de 31 de dezembro a 5 de janeiro deste ano foi paga pela Alumpar Alumínios, empresa de propriedade dos filhos de Abi. Isto evidencia a "relação incestuosa de Abi com o poder", considera o MP.
O advogado de Antoun não deu retorno à reportagem; o advogado Douglas Maranhão, que defende Albuquerque, preferiu não comentar a nova denúncia; o Palácio do Iguaçu informou que apenas o PSDB poderia tratar das questões relativas à campanha, mas, apesar dos recados, a assessoria de imprensa não deu retorno à solicitação de entrevista e tampouco se manifestou sobre a suposta participação de Luiz Pontes. Em notas anteriores, o PSDB negou que Abi tenha tratado de arrecadação para a campanha de Beto e garantiu que todas as doações "ocorreram dentro da legalidade". (Colaborou Luís Fernando Wiltemburg)

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