Tão antiga quanto a imagem de missas celebradas em latim, com o sacerdote de costas para o público, é a suposição ingênua de que ainda hoje os líderes religiosos limitem o contato com os fiéis ao espaço de um altar ou, quando muito, de uma igreja. Cada vez mais numerosos nas eleições, padres e pastores tentam fazer o eleitorado expandir a fé da palavra de Deus para as próprias palavras, transformadas em promessas que só poderiam ser cumpridas com a conquista de uma cadeira no poder Legislativo ou no Executivo.
Em Londrina a exemplo de pleitos anteriores , o de outubro próximo também contará com integrantes das igrejas Católica e Evangélica. Se os argumentos para participar da disputa são semelhantes, a diferença fica por conta das posições que as lideranças municipais de cada vertente adotam para aceitar ou condenar a iniciativa.
Ecônomo da Cúria Metropolitana de Londrina (dona de 41 paróquias na zona urbana e nove nos distritos) e um dos porta-vozes do arcebispo dom Albano Cavalin, padre Romão Martini Martins explicou que a única candidatura de um padre nestas eleições municipais corre sem o apoio e a aprovação da entidade. Postulante ao Legislativo pelo PPS na coligação que apóia Barbosa Neto (PDT) para prefeito, padre Manuel Joaquim Rodrigues dos Santos foi obrigado a se licenciar do posto durante a campanha já que não teria aceitado uma nota emitida há cerca de dois anos pela Regional Sul 2 (da qual o Paraná faz parte) da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
''A Arquidiocese não aprova a candidatura do padre Manuel e, se ele se eleger, é exigência da Igreja que a licença continue valendo'', adiantou. Segundo padre Romão, o Direito Canônico preconiza que só em ''casos extremos'' o padre pode se candidatar, tais como em época de regimes autoritários. ''Porque aí tem uma justificativa: é a tentativa de se reverter um quadro político no qual a população não teria acesso à democracia'', explicou.
Na opinião do eclesiástico, a rigidez em relação à obrigatoriedade do afastamento tem uma razão especial: a manutenção de uma suposta isonomia entre os concorrentes, argumento usado pelos juízes eleitorais em penalidade por propaganda fora do prazo legal. ''(A licença é imposta) Para o padre não cair na tentação de misturar as coisas e para que não digam que o sacerdote está usando o púlpito. A Igreja vê a política como algo bom e necessário, mas muitos leigos engajados que se candidatam não têm o púlpito; não seria justo.''
A opinião é bastante diversa quanto aos candidatos evangélicos que queiram se aventurar no terreno da política. Para o presidente do Conselho de Pastores de Londrina, Edson de Oliveira Filho, os três informados por ele como concorrentes à Câmara os pastores Joed Lamônica Crespo (PTB), Renato Lemes (PSL) e Sebastião Vieira de Souza (PSB) têm ''total liberdade'' para se lançarem ao que ele chama de uma vocação complementar à exercida no ministério religioso. Das três representantes com maior número de seguidores, como as igrejas Assembléia de Deus, Universal do Reino de Deus e Batista, somente a Universal tem um pastor no páreo, com Lemes. Crespo é da Ministério Sagradas Missões, e Souza, da Evangelho Quadrangular.
''O pastor geralmente lida muito com pobreza, vícios e desestrutura familiar, e as causas desses problemas podem ser combatidas com o ingresso dele na política'', acredita. ''Se o religioso acha que a vocação pastoral é mais ampla que a restrita à igreja, ele pode sair candidato. Temos na cidade pastores médicos ou advogados que são exemplos dessa ideologia'', comentou, para completar: ''Não nos posicionamos sobre essa opção nem achamos saudável para a democracia nos unirmos em prol de um nome'', sentenciou.
Tendo em vista que o evangélico não é obrigado a se licenciar do cargo se eleito ou em campanha, pastor Edson acredita serem bem pequenas as chances de o púlpito ser usado com fins eleitorais. ''Orientamos que, pela ética, esse oportunismo não aconteça'', disse. Mas, conforme o pastor, nem sempre a equivalência da regra é obedecida por muitos dos cerca de 50 candidatos a vereador evangélicos e não pastores estimados pelo Conselho. ''Dá um certo status hoje dizer que é evangélico. Porém, tem gente que usa essa vantagem em época de eleição e se auto-intitula pessoa de Deus agora, passa até a frequentar os cultos a que mal ou sequer ia.''
O pastor não admite, mas não é difícil associar a prática criticada por ele com uma cartilha a ser lançada nos próximos dias pelo Conselho em parceria com o Movimento Evangélico Progressista (MEP). Ele contou que o material vai orientar o eleitor evangélico a votar conforme a postura ''histórico, caráter, família'' dos candidatos que representam o segmento religioso. No dia 21 de setembro, as duas entidades promovem um debate com os concorrentes à Prefeitura no auditório do Sindicato do Comércio Varejista de Londrina.

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