Divisão de poder provoca ziguezague na economia
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sábado, 29 de março de 2008
Lu Aiko Otta<br> Agência Estado 
Brasília - Guido Mantega é um ministro da Fazenda que comanda só uma parte da política econômica. Ele divide o poder, em condições de igualdade, com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Os ''sócios'' procuram conviver pacificamente, mas têm visões diferentes sobre como promover o crescimento da economia brasileira.
Não se trata de um confronto aberto, mas não faltam estocadas. Antes de assumir o Ministério, Mantega era crítico contumaz da política de juros conduzida por Meirelles. Ao assumir a pasta, interrompeu os ataques. Não significa, porém, que passou a concordar com o Banco Central. Volta e meia, Mantega exibe sinais de desconforto com a política de juros.
A situação se agravou este mês porque o Comitê de Política Monetária (Copom), composto pelos diretores do Banco Central, deixou claro que o aumento das taxas de juros está no radar. A ata da reunião do Copom de março informa que foi cogitado um aumento de 1 ponto de porcentagem na taxa, atualmente em 11,25% ao ano. O Copom volta a se reunir nos dias 15 e 16 de abril e boa parte dos economistas aposta em alta.
Preocupado, o Ministério da Fazenda fez uma manobra para tentar ''desarmar'' a alta de juros. Segundo fonte do governo, o objetivo era mostrar que há outras formas de conter a inflação, além de elevar os juros. Porém, a operação se mostrou uma trapalhada.
No feriado de Páscoa, assessores de Mantega fizeram chegar aos jornais a informação de que o governo está preocupado com o aumento do consumo no mercado interno, que pode provocar inflação. O foco da preocupação estaria na venda de automóveis por crediário. Uma possível medida para ''esfriar'' a demanda interna seria encurtar os prazos de financiamento, que hoje chegam a 99 meses.
A informação repercutiu mal, pois trombava com todo o esforço feito pelo governo para aumentar o acesso da população ao crédito e ao consumo. O presidente Lula reclamou. Mantega recuou. Na quinta-feira, o diretor de Política Econômica, Mario Mesquita, disse que as operações de crédito, não são a principal fonte de pressão da demanda.
No início deste mês, Fazenda e Banco Central já haviam se estranhado por causa dos juros. Ao comemorar o crescimento de 5,4% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2007, Mantega comentou: ''Estamos derrubando mitos da economia brasileira, como o mito do PIB potencial. Há não muito tempo, dizia-se que não podíamos crescer mais do que 3%. Está provado que podemos crescer mais do que 5% sem gerar pressões inflacionárias''.
O PIB potencial, o limite máximo que a economia pode crescer de forma equilibrada e sem que os preços comecem a subir, faz parte do modelo usado pelo Banco Central para calcular a taxa de juros. Foi o que ancorou as decisões do Copom classificadas como ''conservadoras'' e ''ortodoxas''. Horas depois, o Banco Central soltou uma nota dizendo que o crescimento do PIB era prova do acerto da política monetária.


