Divergências regionais desafiam Cardoso
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de dezembro de 1997
Agência Estado Brasília 
O presidente Fernando Henrique Cardoso viverá uma situação curiosa na campanha pela reeleição, em 98, por causa das divergências entre os chefes políticos de alguns Estados. Em São Paulo, por exemplo, um dos palanques é do ex-prefeito Paulo Maluf e o outro é do governador Mário Covas. Na Bahia, ele vai precisar agradar a dois grupos políticos distintos: PFL e PSDB. Os dois partidos apóiam FHC na eleição presidencial, mas defenderão candidatos diferentes na eleição estadual. São fortes adversários regionais e não existe a menor possibilidade de uma aliança.
No PSDB baiano estão alguns dos mais ferrenhos adversários políticos do cacique pefelista, senador Antônio Carlos Magalhães: o ex-governador Nilo Coelho, o ex-ministro do Bem Estar Social Jutahy Magalhães Júnior e o deputado federal João Leão. Poderia até ser pior. É que este ano houve uma revoada de uma outra parcela inimigos de ACM que estavam no ninho tucano. O ex-governador Waldir Pires foi para o PT, a ex-prefeita Lídice da Mata e o deputado federal Domingos Leonelli trocaram o PSDB pelo PSB.
Na eleição presidencial passada, o PSDB baiano rompeu com a direção nacional depois que Fernando Henrique Cardoso aprovou a aliança com o PFL. Os tucanos da Bahia apoiaram, então, o candidato petista Luís Inácio Lula da Silva. A partir desse episódio, a direção nacional do PSDB isolou os dissidentes. A reconciliação foi feita no ano passado mas a convivência nunca foi muito boa. Na filiação de Nilo Coelho ao partido, em junho, ocorreu uma nova crise que culminou com a saída da direção nacional do PSDB do ministro das Comunicações Sérgio Motta.
O presidente regional do PSDB, Jutahy Júnior, contou que a direção nacional do partido já sabe o clima que FHC vai encontrar na Bahia. Vamos apoiá-lo mas suas visitas ao nosso Estado precisam ser separadas: PSDB e PFL. Segundo Jutahy, caberá aos coordenadores da campanha definir como atenderá aos dois partidos na Bahia. Ele pode, por exemplo, fazer uma visita à sede do nosso partido ou visitar um município governado por um tucano sugeriu. Como o PSDB baiano, provavelmente, não vai lançar candidato próprio ao governo do Estado, o constrangimento será menor. Isso pode evitar que FHC suba em dois palanques para pedir votos para dois candidatos ao governo baiano.
SANTA CATARINAEm Santa Catarina, é remota a hipótese de o PMDB, partido do governador Paulo Afonso Vieira, subir no palanque ao lado do PPB, partido dos senadores Esperidião Amin e Vilson Kleinubing. Esse último foi um dos ferrenhos adversários do governador na CPI dos Títulos Públicos, e propôs, recentemente, que 50% da arrecadação proveniente das privatizações seja destinada à amortização das dívidas dos Estados, com a qual Paulo Afonso não concorda.
Mesmo com essas dificuldades, o prefeito de Joinville-SC, Luiz Henrique da Silveira, da ala do PMDB histórico catarinense, tenta costurar um entendimento para que seu amigo, Fernando Henrique Cardoso, não encontre dificuldades durante a campanha pela reeleição.
Entre o PFL do senador Jorge Bornhausen, hoje embaixador do Brasil em Portugal, e o PPB, de Amin, é quase certo que não haverá problema. Existe hoje entendimento entre os dois e a idéia é não dificultar a campanha do presidente Fernando Henrique em Santa Catarina. Esperidião Amin é forte candidato a governador e a ele interessa ter ao lado, no palanque, o presidente da República.
MATO GROSSO DO SULNo Mato Grosso do Sul, o deputado federal Saulo Queiroz (PFL) diz abertamente que, se não for candidato ao Senado, apoiará o ex-governador Pedro Pedrossian (PTB), inimigo pessoal e político do atual governador e declarado amigo de FHC, Wilson Barbosa Martins (PMDB). Saulo afirma que já não tem mais o que negociar nesse sentido, principalmente com os tucanos que estão à frente da composição para apoiar FHC.
CEARÁQuando passar pelo Ceará, em campanha, Fernando Henrique vai encontrar, no seu palanque, alguns dos principais e mais ardorosos defensores de sua recondução. E um dos que mais trabalharam para a aprovação da emenda que permitiu a reeleição de FHC. O governador Tasso Jereissati, uma das estrelas do PSDB, apontado como um dos mais fiéis conselheiros do presidente, mostrará duas situações distintas: em matéria de sucessão presidencial, o tucanato local não convidará os partidos de esquerda - PT, PPS, PPB nem o PC do B - para qualquer evento em razão de inexistir algum tipo de identificação. Nem o PPS, do ex-tucano Ciro Gomes, amigo pessoal do governador, mas um áspero crítico de FHC. E seu concorrente também.
O PMDB, que acolheu no passado Jereissati e FHC, dificilmente subirá no palanque de FHC se depender da ala liderada pelo presidente nacional do partido, do deputado Paes de Andrade que, não admite qualquer tipo de aproximação com o presidente e com o governador. Já o prefeito de Fortaleza, Juraci Magalhães, do PMDB, alimenta a idéia de uma aproximação com Jereissati e FHC.
O PFL, liderado pelo coronel Adauto Bezerra, presidente de honra do partido, defende implicitamente uma aliança com o PSDB, por entender que não existe contradição, uma vez que a nível federal os dois partidos estão aliados. A tese pefelista não agrada o presidente do partido, o deputado federal Roberto Pessoa, mas ele já anunciou que não criará problemas para essa parceria.
ESPÍRITO SANTOO quadro sucessório para o governo do Espírito Santo vai ser definido somente no ano que vem. Mas todos os pré-candidatos ao governo com possibilidades de vencer - os senadores Gerson Camata (PMDB) e José Ignácio Ferreira (PSDB) e o ex-prefeito de Vitória, Paulo Hartung - são aliados do presidente Fernando Henrique Cardoso e esperam seu apoio na campanha.
Nos meios políticos capixabas, comenta-se que Camata e Ignácio podem fazer um acerto para que somente um deles saia candidato - Camata seria o nome preferido do presidente Fernando Henrique Cardoso. Neste caso, Hartung, atualmente diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), assumiria o Ministério dos Transportes.
PARAÍBAO ex-governador Tarcísio Burity (PPB), candidato a candidato ao Senado, disse à Agência Estado que não vai subir ao palanque do presidente Fernando Henrique Cardoso, se lá estiver também o senador Ronaldo Cunha Lima (PMDB). Ele é o meu agressor, e cometeu o crime de homicídio qualificado contra mim, explicou Burity, ao considerar Cunha Lima seu inimigo. Ele continua impune, numa afronta à convivência moral e ética do País, afirmou o ex-governador.
Burity, que governou a Paraíba por duas vezes, refere-se ao incidente que aconteceu no Restaurante Gulliver, em 1993, em João Pessoa, quando foi baleado na mandíbula por seu antecessor no governo, Cunha Lima. É simplesmente impossível estarmos no mesmo palanque, disse Burity, ao lembrar que o PPB é oposição ao governo de José Maranhão (PMDB), embora o partido apóie Fernando Henrique à reeleição.


