Divergências derrubam presidente da Sanepar
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terça-feira, 10 de fevereiro de 2004
Vânia CasadoLeandro Donatti<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O presidente da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), Caio Brandão, pediu demissão da direção da empresa, do cargo de diretor administrativo e da vaga que ocupava no Conselho de Administração, funções que vinha ocupando desde março do ano passado. Brandão encaminhou carta ao governador Roberto Requião (PMDB) na segunda-feira e ontem formalizou o pedido de demissão junto ao Conselho de Administração que já elegeu substitutos para os cargos ocupados por Brandão.
O novo presidente da Sanepar é Stenio Jacob, que passa a acumular a presidência com o cargo de diretor comercial. O novo diretor administrativo será o primo do governador Requião, Heitor Wallace de Mello e Silva. O cargo de conselheiro será ocupado pelo suplente.
Brandão não negou que sua saída da Sanepar foi motivada por divergências com o Conselho de Administração, presidido por Pedro Henrique Xavier, que também é assessor jurídico e homem de confiança de Requião. Brandão alegou que não tinha liberdade para administrar a empresa e que todas as decisões que precisava tomar dependiam do conselho que se reunia a cada 15 dias.
Segundo Brandão, a estatal tem muitas amarras que tiram o poder da presidência. Qualquer transação acima de R$ 100 mil tem que ter autorização do conselho. ''Assim não dá.'' Por várias vezes pediu mudanças no estatuto, sugestão que nunca foi aceita.
O ex-presidente da Sanepar se autointitulou ''um empresário de sucesso'' e que durante 25 anos dedicados a empresas privadas nunca precisou assinar nem um memorando sequer. ''As decisões eram implementadas muito rapidamente (...)''
Para Pedro Xavier, a eleição de novo presidente e diretor administrativo vai ser ''benéfica'' para a Sanepar porque uniformiza a condução do modelo de gestão previsto pelo governo Requião para a empresa. Xavier disse que pessoalmente não tinha divergências com Brandão. Mas admitiu que Brandão tinha divergências com o estatuto do Conselho de Administração, presidido por ele (Xavier). Segundo Xavier, o governo não concorda com a mudança de estatuto porque pretende manter um controle bem próximo sobre as estatais.
Jacob assume a presidência da Sanepar num momento delicado. Paralelamente às brigas domésticas, há uma pendência judicial que preocupa o governador. No primeiro ano de governo, Requião baixou um decreto anulando o pacto de acionistas, firmado no governo Jaime Lerner (PSB) e que dava poderes de comando ao Consórcio Dominó, formado pela Construtora Andrade Gutierrez, Banco Opportunity e grupo francês Vivendi. Inconformado com o decreto, o consórcio recorreu à Justiça.
Na semana passada, o Tribunal de Justiça (TJ) do Paraná começou a analisar o recurso. Três desembargadores já se manifestaram favoráveis à revogação do decreto de Requião. O governo foi salvo pelo pedido de vistas do desembargador Carlos Hoffmann, o que por ora tirou o recurso de pauta. Ao saber da manifestação ainda parcial dos desembargadores, Requião começou uma ofensiva na tentativa de sensibilizar o Poder Judiciário da importância de seu decreto. Hoje a Folha traz artigo assinado do governador, expondo os riscos de a Sanepar voltar ao controle privado. O governador faz uma advertência aos municípios para que retirem a concessão do serviço de água e esgoto das mãos da Sanepar.


