Arquivo FolhaArmando Falcão, na época da JustiçaAo contrário de censurar as novelas na década de 70, militares e censores da Polícia Federal queriam usá-las para transmitir mensagens favoráveis à Ditadura. Um informe do Serviço Nacional de Informações encontrado nos arquivos secretos do Ministério da Justiça sugeria que a telenovela ‘‘Irmãos Coragem’’, exibida pela TV Globo, seria um excelente veículo para propaganda oficial.
O governo também temia que os festivais de música pudessem exercer influência sobre a juventude. Num comunicado feito ao então diretor da Polícia Federal, coronel Moacyr Coelho, o ministro da Justiça, Armando Falcão, recomendava ‘‘toda a vigilância do DPF no sentido de ajudar a coibir os festivais’’.
Na década de 70, ‘‘Irmãos Coragem’’ era a campeã de audiência da televisão brasileira. Estrelada pelo mais popular time de atores da época (Tarcisio Meira, Glória Menezes, Cláudio Marzo, Cláudio Cavalcanti, Regina Duarte, entre outros), retratava a saga de um garimpeiro que achou uma grande pedra de diamante e depois foi injustiçado. Para os censores, não era uma boa história, mas eles esperavam utilizar os atores como fonte de divulgação de mensagens de interesse do regime.
‘‘Qual a solução, partindo-se do princípio que os temas focalizados nas novelas seriam julgados inconvenientes à educação e orientação política, familiar e cristã dos jovens e adultos’’, pergunta o funcionário da censura Aluisio Gavazzoni Silva, em 29 de janeiro de 1971.
Ele mesmo oferecia a proposta. ‘‘Consiste em se conseguir, por meios de convencimento, a orientação e educação das massas através de exemplos vividos no vídeo pelos personagens mais destacados das histórias. Algumas reuniões com os dirigentes da emissora responsável poderiam traduzir a idéia do governo e a sua adoção transformaria a TV em magnífica máquina de educação popular sem os inconvenientes que sempre trazem ações do mesmo gênero rotuladas educativas’’, sugeria.
Na verdade, o censor propunha praticamente que o governo se tornasse uma espécie de co-autor das novelas. ‘‘Um anti-herói - hoje tão a gosto do telespectador - veria suas atitudes produzirem resultados negativos, nunca alcançando os objetivos pelos quais luta. Ora, a maneira de se atingir o resultado colimado surgiria aos olhos e à mente da platéia, naturalmente, subliminarmente, de modo que a absorção da mensagem fluiria para o subconsciente, aflorando em idéias aparentemente brotadas das conclusões pessoais de cada um’’, propunha o censor.
‘‘Irmãos Coragem’’ não chegava a fazer críticas ao sistema de governo, mas também não dirigia loas aos militares. Por isso, apesar de ser constantemente monitorada pelos censores, não representava uma grande preocupação. As partes que deveriam ser censuradas eram poucas, mas a grande penetração da telenovela e a fama de seus atores justificava a vigilância.

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