Ditadura sabotou Nobel de D. Hélder
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sábado, 27 de setembro de 1997
Márccio Varella Maringá 
Marcos NegriniBoicote nos bastidoresO professor paranaense Walter Praxedes, co-autor do livro sobre o arcebispo:Jogo diplomático fez Dom Hélder perder o Nobel da Paz O Governo Médici (1970-1975) trabalhou para que o brasileiro Hélder Câmara não conseguisse o Prêmio Nobel da Paz, apesar de o arcebispo de Olinda e Recife ter sido indicado quatro vezes para disputar o título. O boicote coordenado pelo embaixador brasileiro em Oslo (capital da Noruega) à época influenciou o julgamento do Comitê Nobel, responsável pela indicação dos ganhadores dos prêmios. É o que mostra o livro Dom Hélder Câmara - Entre o Poder e a Profecia (foto), de autoria dos professores universitários Nelson Piletti e Walter Praxedes, através de documentos, papéis secretos do governo e entrevistas reunidos ao longo dos dois últimos anos.
O livro foi lançado no mês passado na Bienal do Rio de Janeiro, pela editora Ática. Um de seus autores, o sociólogo Walter Lúcio de Alencar Praxedes, 32 anos de idade, é paranaense, natural de Astorga. Neste ano, voltou a dar aulas no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá. Ele conta que a trama e a posterior sabotagem à escolha de Dom Hélder para Nobel da Paz, nos anos de 70, 71, 72 e 73, feitas pelo Governo Médici, foram descobertas por acaso.
ReproduçãoAntes de 64Dom Hélder encontra o presidente João Goulart
Em 1994, Praxedes começou a elaborar sua tese de mestrado na Universidade de São Paulo (USP), com enfoque sobre educação popular. Ele e seu coordenador de mestrado, o historiador da USP Nélson Piletti, analisaram obras de inúmeros autores e decidiram focar as atenções no trabalho de D. Hélder. Praxedes viajou ao Recife para conversar com o padre, que desde 1985 estava recolhido à Igreja das Fronteiras. Hoje ele tem 85 anos, sua memória está um pouco gasta e não gosta e dar entrevistas para não entrar em choque com autoridades. Mesmo assim, consentiu em falar sobre sua vida e seu trabalho, disse Praxedes.
D. Hélder pediu a Praxedes que procurasse sua secretária por mais de 30 anos, Aglaia Peixoto, no Rio de Janeiro, que tinha em seu poder documentos e manuscritos sobre sua vida. Antes mesmo de ir ao Rio, Praxedes e Piletti decidiram que a tese de mestrado se chamaria Dom Hélder Câmara e a Educação Popular no Brasil. Já no Rio, através de Aglaia, Praxedes pôde manusear inúmeros documentos, inclusive papéis secretos da embaixada brasileira em Oslo (capital da Noruega), que estavam em poder do padre, e mais 8 mil páginas de manuscritos de Dom Hélder.
São diários escritos ao longo de quase todos os dias de sua vida pública. Ele escrevia diariamente das duas às cinco da manhã, relatando desde suas atividades políticas, passando pelos seus problemas com as autoridades do regime militar brasileiro, até a perseguição da Igreja e as repreensões do Vaticano, revela Praxedes.
Depois de 64Boicote a arcebispo foi coordenado por embaixador brasileiro em Oslo
Levei um susto com o conteúdo dos documentos, que mostravam claramente como seu nome foi preterido para a escolha do Nobel da Paz por quatro vezes. Concluí que o trabalho não poderia ficar apenas na tese de mestrado, restrito à universidade. Então eu e Piletti resolvemos escrever o livro, mostrando todos os documentos, afirmou o escritor.
Os documentos publicados pelo livro mostram que o embaixador brasileiro em Oslo, Jaime Souza-Gomes, que morreu em 1976, conspirou com jornalistas e empresários para publicar reportagens desfavoráveis ao arcebispo de Recife e Olinda em jornais da Noruega e assim influenciar os membros do Comitê Nobel, que são indicados pelo Parlamento norueguês.
Os primeiros documentos aos quais Praxedes teve acesso são telegramas enviados pelo embaixador Souza-Gomes ao Ministério das Relações Exteriores. Neles, o embaixador presta contas de seu discreto e frutuoso esvaziamento da candidatura Hélder Câmara ao Nobel da Paz, conforme dizia um dos textos dos telegramas.
Praxedes e Piletti contam que a conspiração teve a colaboração de um personagem-chave: o empresário norueguês Tore Munch, que havia montado uma fábrica de guindastes no Brasil e morreu no final da década de 70. Através dos manuscritos do padre, dos telegramas, ofícios e outros documentos, os dois autores descobriram que um jornalista do Morgenposten, de propriedade de Munch, teria recebido do jornalista Júlio de Mesquita Neto, de O Estado de S.Paulo, um dossiê sobre o arcebispo, contendo suas denúncias de torturas de presos políticos, a luta para libertar jornalistas, políticos e padres das prisões e uma análise sobre os problemas sociais brasileiros.
Os documentos reunidos pelos dois professores, que também conseguiram cópias de fitas de programas da televisão norueguesa sobre a campanha difamatória contra o padre, mostram que o embaixador Souza-Gomes usava dois argumentos para arregimentar voluntários ao seu trabalho. O primeiro dizia que a escolha de Dom Hélder como Nobel da Paz poderia prejudicar investimentos noruegueses no Brasil. O segundo era uma fita de entrevista gravada com o embaixador norte-americano Charles Burck Elbrick, que havia sido sequestrado pela ALN e MR-8 em 4 de setembro de 1969. Elbrick teria dito que Dom Hélder seria uma opção civil à presidência da República no caso de uma saída dos militares do poder. A fita foi apreendida pelo Exército, segundo Praxedes.
No Brasil, em 1970, os jornais O Estado de S.Paulo, O Globo e a revista O Cruzeiro promoviam campanha difamatória contra Dom Hélder. Foi neste ano que Dom Hélder denunciou em Paris as torturas contra presos políticos no Brasil. Foi no Ginásio de Esportes da capital francesa, diante de uma platéia de 14 mil estudantes.
Em 1969, o ganhador do Nobel da Paz, René Cassin, indicou o nome de Dom Hélder para receber o prêmio de 1970. Praxedes lembra que o empresário Munch conhecia pessoalmente dois membros do Comitê Nobel: o banqueiro Sjur Lindebraekke e o presidente do Parlamento norueguês Bernt Ingvaldsen. Através deles, Munch teria introduzido no Comitê o dossiê contra o padre conseguido no Brasil. Em 70, o padre brasileiro concorreu com um desconhecido biólogo norte-americano, pesquisador da Fisiologia das plantas, Norman Borlaug. Ele fez pesquisa sobre cereais para a Fundação Rockfeller e acabou levando o Nobel da Paz.
Em 71, Dom Hélder disputou o prêmio com o chanceler alemão Willy Brandt. Documento reunido por Praxedes mostra que em fevereiro daquele ano o empresário Munch fez um balanço por escrito das tendências do Comitê para o Nobel da Paz ao embaixador brasileiro em Oslo. Segundo este relatório, o chanceler tinha o apoio de Ingvaldsen, Lindebraekke e da presidenta do comitê Aase Lionaes. Dom Hélder era apoiado pelo juiz Helge Refsum e por John Sannes, presidente do Instituto de Política Exterior da Noruega. Venceu Brandt. Em 72, não houve vencedor e em 73, ganharam Henry Kissinger e o vitnamita Le Duc To.


