A aliança entre o PT e PDT, a principal sustentação da frente de oposições que avalizaria a candidatura de Luís Inácio Lula da Silva à presidência da República, vive um momento crítico. Num almoço no sábado com Lula e o presidente nacional do PT, José Dirceu, o presidente de honra do PDT, Leonel Brizola, abriu o verbo: ele acha que a decisão do PT gaúcho, tomada no encontro estadual do partido, de só definir uma composição regional com o PDT em abril, vai comprometer os planos de casamento a nível nacional.
‘‘Foi um retrocesso e estamos vivendo uma espécie de crise’’, queixou-se hoje o ex-governador do Rio. ‘‘O PDT do Rio Grande do Sul está ressentido e isso trará efeitos inevitáveis Brasil afora’’. O almoço aconteceu num pequeno restaurante em São Paulo, perto do escritório de Lula, mas não foi a paella servida que causou o mal-estar entre os comensais. José Dirceu reconheceu que, embora a resolução do PT gaúcho não proíba a aliança, atrapalhou as negociações entre as direções dos dois partidos. ‘‘Brizola leu que o PT gaúcho não quer a aliança; a sociedade também’’, afirmou Dirceu. ‘‘O PT tem de aprender que os demais partidos não vão aceitar uma posição hegemonista’’.
Uma das vozes mais atuantes em favor da política de alianças, Dirceu vai apresentar no Encontro Nacional do partido, a partir do dia 29, a proposta da realização de um congresso apenas para tratar do tema - ou, então, a convocação de um plebiscito. ‘‘As alianças regionais têm de ser subordinadas à política nacional e, se pretendemos construir um governo para esse País, temos de pensar nisso: nenhum partido governa sozinho’’, defendeu.
Logo após ao almoço, ele procurou os líderes do PT gaúcho, os ex-prefeitos Olívio Dutra e Tarso Genro, para transmitir a eles a posição de Brizola. Segundo Dirceu, eles garantiram que vão se empenhar para promover a aliança regional. ‘‘Sou otimista: vamos fazer tudo para que aconteça a aliança da oposição ao governo Fernando Henrique’’, afirmou. Brizola, no entanto, não parece tão animado. ‘‘Ficou inviável a união entre os dois partidos no Sul’’, sentenciou.
A posição do PT gaúcho pode, segundo Brizola, acrescentar mais dificuldades a uma aliança regional no Rio de Janeiro, onde a base petista é inimiga do PDT. Ele lembrou que a senadora Benedita da Silva (PT-RJ), embora seja favorável à aliança, quer sair candidata ao governo - mas o PDT aposta suas fichas na candidatura do prefeito de Campos, Anthony Garotinho.
O PT tem ainda outro problema em pauta. Está previsto para hoje um encontro, em São Paulo, entre Lula e o governador do Espírito Santo, Vítor Buaiz, que está prestes a sair do partido. A maioria na direção do partido não aprovou as propostas de expulsar Buaiz de suas fileiras, mas as chances de o governador permanecer no partido são remotas. ‘‘A situação dele é insustentável e teria de mudar o seu governo’’, aponta Dirceu.
Apesar do problema no Sul, Brizola, Dirceu e Lula pretendem continuar se encontrando pelo menos uma vez por semana.

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