O ambiente do plenário da Câmara transformou-se, de parlamento, num colégio interno de garotos, na sessão que se estendeu até as 23h30 de anteontem. A discussão e votação do projeto de lei que cria a Semana Nacional de Combate e Prevenção ao Câncer de Próstata, da deputada Telma de Souza (PT-SP), suscitou reações tão exacerbadas e comentários que só mostraram a dimensão da resistência da bancada masculina parlamentar a temas ainda considerados tabus na Câmara.
As risadas e piadas dos deputados, incompatíveis com o ambiente de um parlamento, contrastavam com a preocupação da deputada petista, que defendia o projeto revelando em números o alarmante aumento de casos de morte provocados pelo câncer de próstata. São raras as vezes em que o plenário da Câmara fica lotado até a meia-noite. Mas somente quando passava das 23 horas e começava a ser discutido o projeto de autoria de outra petista, Marta Suplicy (SP), permitindo a união civil entre pessoas do mesmo sexo, é que se soube o motivo de tanta excitação do plenário.
Foi a primeira vez que os parlamentares revelaram o grau de resistência à proposta, batizada de ‘‘casamento gay’’ e traduzida pelo líder do PFL, Inocêncio Oliveira (PE), como ‘‘pouca-vergonha’’. Por sinal, foi Inocêncio quem conseguiu levar o plenário à loucura quando, subitamente, começou a esbravejar contra a aprovação da proposta. ‘‘Este projeto é um desrespeito à Casa, é uma aberração contra a natureza’’, gritava, embalado pelos aplausos e urros dos deputados que ocupavam quase todo o plenário.
‘‘Inocêncio, não tenho dúvida alguma, você é a glorificação do homem de bem e meu candidato ao Senado’’, elogiava o deputado Severino Cavalcanti (PPB-PE), o mais ardoroso opositor da proposta da união gay e representante da bancada católica. ‘‘Sou líder hoje de uma sociedade que deseja a moralidade da família brasileira’’, pregou.
A algazarra dos parlamentares começou bem antes do anúncio da discussão da matéria. Irritados com a tentativa de manobra de Marta para impedir que o projeto fosse derrotado, os parlamentares não saíram do plenário e não aceitaram o pedido da petista feito à Mesa Diretora para que o projeto fosse adiado.
‘‘Vamos votar é agora mesmo, queremos saber a verdade da Casa, quem é quem nessa Casa’’, gritava o deputado Nilson Gibson (PSB-PE), da ala conservadora do Congresso, pregando uma espécie de caça às bruxas. Enquanto Marta tentava argumentar sobre o adiamento e o deputado Nelson Marquezzeli (PTB-SP), no fundo do plenário, repetia os gritos de ‘‘baitola, baitola’’.

mockup