Diretor critica CPI e é demitido do BC
Agência Estado
De Brasília
Uma hora após conceder uma entrevista coletiva de mais de quatro horas na qual desclassificou o relatório da CPI do Sistema Financeiro, chamando de lixo o trabalho dos senadores, o diretor de Fiscalização do BC, Luiz Carlos Alvarez, foi demitido do cargo. Em breve comunicado lido pela assessoria de imprensa, o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, informava que tinha aceito o pedido de demissão do diretor.
Nos bastidores, no entanto, a saída do diretor foi uma iniciativa da presidência do BC, em razão dele ter desqualificado a CPI. Fraga assinou ontem mesmo portaria indicando o nome do diretor de Reestruturação dos Bancos Estaduais, Carlos Eduardo de Freitas, para acumular interinamente a diretoria de Fiscalização do BC.
Fontes do Banco Central garantiram que Alvarez estava sob pressão há vários dias e que sabia que o senador Jáder Barbalho já tinha pedido a sua demissão. Ele vinha reclamando que não fazia outra coisa na diretoria do banco do que responder às solicitações dos senadores, disse uma fonte.
Assessores do diretor afirmaram que Alvarez parecia já saber que iria deixar o cargo antes mesmo de conceder a entrevista. Suas declarações foram de um diretor demissionário, avaliaram. Um assessor direto do diretor contou que assim que retornou ao seu gabinete Alvarez ligou para Armínio Fraga: Falei demais. Disse que o relatório era um lixo, teria dito Alvarez colocando, em seguida, o cargo à disposição. Segundo essa fonte, Fraga pediu um tempo e depois retornou a ligação, aceitando o pedido.
Na avaliação do assessor da diretoria de Fiscalização, ao colocar o cargo à disposição Alvarez apenas se antecipou aos fatos. Ele sabia que os políticos iriam pedir a sua cabeça e que o Palácio do Planalto cederia, disse a fonte. De acordo com o assessor, mesmo demissionário Alvarez continuou cumprindo a agenda normalmente, inclusive com reuniões fora do banco. Como já tem tempo para solicitar a aposentadoria, a intenção do diretor demissionário é sair de férias e depois se afastar, definitivamente, do BC.
As pressões que o diretor demissionário do BC vinha enfrentando não diziam respeito somente à atuação da CPI. Alvarez estava tendo dificuldades dentro do BC pela sua posição a favor da reestruturação do órgão, com o fechamento e enxugamento de várias regionais. Na reforma administrativa em curso no BC, as delegacias regionais de Belém e Salvador, por exemplo, serão extintas. O anúncio da redução de atividades em algumas praças não agradou aos colegas do banco e menos ainda aos políticos. Segundo assessores, Alvarez sempre argumentou que não se justificava a presença do BC em locais que não contam com matrizes de bancos.
Na nervosa entrevista coletiva, concedida ontem, Alvarez procurou ser didático. Ele apontou, um por um, o que na sua opinião foi uma sucessão de erros e equívocos cometidos por quem não entende de sistema financeiro.
Acompanhado do chefe do departamento de Operações Bancárias (Deban), Luís Gustavo Machado, Alvarez fez questão de detalhar a operação do Proer, separando-a do débito nas reservas bancárias. São coisas distintas e que não podem ser misturadas nem somadas. afirmou.
Segundo Alvarez, a CPI fez uma confusão ao misturar as duas coisas. Como nós podemos estar escondendo os números verdadeiros, se fomos nós que informamos tudo à CPI, perguntou. Segundo ele, o débito nas reservas bancárias já estava dado, independente do Proer, que foi instituído com o objetivo de proteger as aplicações dos clientes dos bancos. Não seria justo o Banco Central colocar o seu débito dentro do Proer, argumentou. Daí, segundo o diretor, que em valores atualizados o Proer tem a receber R$ 22,8 bilhões, sendo de mais R$ 12,9 bilhões o saldo devedor na conta de reservas bancárias dos bancos beneficiados com o programa.
Alvarez lembrou ainda que, em valores históricos, o Proer concedido foi de R$ 20,3 bilhões e que as garantias, em papéis do governo, superam esse valor em 20%. Do montante concedido, R$ 4,3 bilhões já foram pagos. Em valores atuais, os recebimentos saltam para R$ 5,6 bilhões e os valores a receber, R$ 22,8 bilhões. Mas o relatório indica que o Proer tem a receber, do BC, R$ 37,7 bilhões.Luiz Carlos Alvarez, que respondia pela área de fiscalização, chama relatório da CPI dos Bancos de lixo e perde o emprego na hora
Lindauro Gomes/Agência EstadoACIDEZAlvarez: críticas à comissão por misturar dados e apontar erros através de quem não entende de sistema financeiro





