Diretor afastado da Abin desmente Nelson Jobim
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terça-feira, 09 de setembro de 2008
Vannildo Mendese Rosa Costa<br>Agência Estado 
Brasília - O diretor-geral afastado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), delegado Paulo Lacerda, desmentiu ontem o ministro da Defesa, Nelson Jobim, ao negar, em depoimento na Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência do Congresso, que o órgão tenha equipamentos capazes de fazer escutas telefônicas e que tenha praticado ilegalidades durante sua gestão. Afastado do cargo devido à crise provocada pelo episódio dos grampos contra o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes e outras autoridades, ele acabou se envolvendo num bate-boca com o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), um dos supostos alvos de escutas ilegais.
Virgílio interrompeu a fala de Lacerda, feito na parte da sessão aberta ao público, para indagar se ele considerava que o ministro da Defesa mentira quando disse que a Abin tinha maletas capazes de fazer escutas à margem da Justiça e sem passar pelas companhias telefônicas. A acusação de Jobim causou o afastamento de Lacerda do cargo, determinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
''Como diretor da Abin, afirmo que ela não possui (as maletas que grampeiam)'', respondeu ríspido Lacerda. ''Acho que o senhor deveria indagar ao ministro. Vá perguntar a ele'', aconselhou. ''Não sou seu preso. Não me trate como se eu estivesse num pau de arara. Insisto na pergunta: o ministro mentiu?'', retrucou Virgílio.
Depois do mal-estar, Lacerda pediu desculpa, mas explicou que estava também indignado com as ''acusações levianas'' das quais se disse vítima. O bate-boca foi rapidamente contido com a intervenção de apaziguadores. Por sugestão do senador Romeu Tuma (DEM-SP), a comissão aprovou a realização de uma diligência, com um perito próprio, para saber quem tem razão e averiguar se as maletas da Abin fazem ou não escuta telefônica. A comissão aprovou também a convocação de Jobim para depor, em data a ser agendada com o ministro.
Foi aprovada ainda a tomada de depoimento do araponga aposentado Francisco Ambrósio do Nascimento, suspeito de ter comandado uma equipe de espiões, alguns deles da ativa, convocada pelo delegado Protógenes Queiroz para auxiliar nas investigações da Operação Satiagraha, que resultou na prisão do banqueiro Daniel Dantas, do ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e do investidor Naji Nahas.
Também presente à audiência o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Jorge Armando Felix, negou que a Abin tenha feito escutas ilegais durante a Satiagraha. De acordo com o general, a Abin, enquanto instituição, limitou-se a atender a um pedido da PF para prestar colaboração de rotina. ''Não há, até agora, qualquer prova de envolvimento da Abin em escutas ilegais. O que houve foi uma cooperação legítima com os trabalhos da Polícia Federal.''
Último a depor, o diretor-geral da PF, delegado Luiz Fernando Corrêa, disse que a PF realiza grampos apenas com autorização judicial e em casos excepcionais. ''Há um mito em torno do uso de escutas'', observou. Segundo ele, dos mais de 160 mil inquéritos realizados pela PF nos últimos anos, só pouco mais de 3% foram amparados em grampos.


