Diretas sepulta a ditadura
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terça-feira, 30 de março de 2004
Agência Estado 
São Paulo - A Campanha das Diretas nasceu como um desdobramento natural da mobilização popular - a mais clara e simbólica vontade do povo, após 17 anos de ditadura, era votar para presidente. A vontade virou marca das oposições, cresceu e pegou como fogo morro acima, mas esbarrava num empecilho legal: para que o povo pudesse eleger o sucessor de Figueiredo, a Constituição - que previa eleições indiretas para presidente - tinha de ser mudada. E nas eleições de 1982, mesmo vencendo no total de votos, a oposição não alcançara maioria no Congresso.
As oposições formularam duas estratégias: a primeira seria empolgar o País numa campanha pelas eleições diretas, o que pressionaria o governo a mudar a Constituição; a segunda, se a primeira desse errado, seria cooptar parlamentares do PDS para votar num eventual candidato indireto da oposição.
As oposições estavam fortes como nunca: tinham os governadores de dez Estados, incluindo os mais importantes - São Paulo (Franco Montoro), Minas Gerais (Tancredo Neves), Rio de Janeiro (Leonel Brizola) e Paraná (José Richa). Mas no Nordeste o PDS tinha feito barba, cabelo e bigode, elegendo todos os governadores da região.
Muitos deputados conjeturavam apresentar uma emenda pelas diretas, mas Dante de Oliveira, um engenheiro filho de ex-udenista, eleito para o primeiro mandato por Mato Grosso, foi ágil: coletou as assinaturas necessárias antes de começar a legislatura e, no dia da instalação do novo Congresso, ainda em fevereiro, protocolou uma emenda propondo eleições diretas para presidente da República.
A idéia de fazer uma campanha nacional pelas eleições diretas nasceu em abril de 1983, mas a campanha só teria sua primeira etapa no dia 12 de janeiro de 1984, com um comício que reuniu o razoável público de 30 mil pessoas na Boca Maldita, em Curitiba, e depois se espalhou pelo País.
A emenda Dante de Oliveira foi votada pela Câmara dos Deputados no dia 25 de abril, mas não atingiu quórum suficiente para seguir ao Senado - teve 298 votos favoráveis, 65 contrários e 3 abstenções, enquanto 112 deputados faltaram à votação. Na noite de 25 de abril, enquanto pranteavam a derrota das diretas, os principais líderes oposicionistas já articulavam o lançamento da candidatura de Tancredo Neves, cujas bases já estavam assentadas. Havia problemas: o PT recusava-se a votar no colégio eleitoral, o que suprimia alguns preciosos votos da oposição. Tancredo foi oficialmente lançado candidato em 29 de junho, quando já estava articulada a Frente Liberal, uma defecção do PDS que prometia apoiar Tancredo.
Quinze dias depois, com o apoio do vice-presidente Aureliano Chaves, era firmada a Aliança Democrática, um pacto do PMDB com a Frente Liberal. Mais alguns dias e Paulo Maluf ganhou a convenção do PDS, vencendo o candidato de Figueiredo, Mário Andreazza. Em 14 de agosto Tancredo renunciou ao governo de Minas e consolidou-se como candidato. No dia 15 de janeiro, na eleição indireta, o voto proferido pelo deputado João Cunha (PMDB-SP) sepultou os 20 anos de ditadura militar.


