Curitiba - A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga os conflitos agrários no Paraná deverá ouvir hoje o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) do Paraná, Roberto Baggio. Ele foi chamado para explicar como a organização pensa a reforma agrária no Estado e as dificuldades que encontra para o assentamento de famílias no campo. ''Até agora ouvimos apenas proprietários de terras, administradores e arrendatários de fazendas que questionaram politicamente o MST e acusaram os integrantes do movimento de provocarem os conflitos. Tentamos ouvir integrantes do MST por duas vezes, entretanto sem sucesso'', disse o presidente da CPI, Élio Rusch (PFL).
A forma de condução dos trabalhos da CPI e a oitiva dos fazendeiros geraram protestos da Conferência Estadual de Direitos Humanos que divulgou nota de repúdio à CPI da Terra da Assembléia Legislativa. Os delegados repudiram principalmente o que chamaram de ''parcialidade'', ''omissão'' e ''acobertamento de crimes de fazendeiros''. ''O principal interessado em esclarecer fatos relacionados à reforma agrária, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), sequer foi intimado ou convidado para depor'', apontou um trecho da moção de repúdio encaminhada na segunda-feira à Assembléia.
O advogado Luiz Nascimento, integrante do Conselho Estadual dos Direitos Humanos e do Grupo de Trabalho da Conferência, disse ontem, em entrevista à Folha, que a CPI é ''dirigida'' e ''caminha no sentido de marginalizar e criminalizar os movimentos sociais''. ''Ninguém está investigando as milícias armadas promovidas pelos ruralistas. A CPI não é séria e foi formada para garantir interesses particulares dos detentores da terra. É uma CPI dirigida'', pontuou Nascimento.
As declarações da moção de repúdio foram recebidas com espanto por Rusch. ''Eu não vi o documento ainda, mas me espanta o fato deles estarem se metendo no nosso trabalho para tomar partido por uma facção, por um lado que está sendo investigado. As informações da moção são totalmente inverídicas. Estamos tentando ouvir o MST, mas não estamos conseguindo há mais de duas semanas'', esclareceu o parlamentar. ''É de se lamentar. Eles querem apenas desqualificar o nosso trabalho. Estão pré-julgando o que a CPI vai fazer. Não temos como saber se os latifundiários montaram milícias armadas porque os sem-terra nem foram depor e não levaram qualquer tipo de documento que indicasse isso'', analisou.
A assessoria de imprensa do MST confirmou ontem a presença de militantes do MST na audiência da CPI da Terra. ''Não corresponde com a verdade notícias divulgadas nas últimas semanas pela imprensa, que os militantes do MST se recusaram a depor na CPI da Reforma Agrária. Tal atitude revela o caráter de parcialidade e perseguição da CPI, com o notório objetivo de criminalizar a luta pela reforma agrária'', pontuou a nota oficial encaminhada ontem à Folha pelo MST.
De acordo com a nota, todos os militantes notificados se prontificaram a comparecer. Entretanto, até o momento a CPI não teria disponibilizado recursos financeiros para auxiliar com as despesas das pessoas que moram no interior. ''O MST acreditava que a CPI da Reforma Agrária paranaense fosse um instrumento para alavancar o processo massivo da reforma agrária no Paraná e no Brasil. Porém, mais uma vez se tornou um instrumento do latifúndio e de criminalização da luta pela reforma agrária'', finalizou a nota oficial.

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