Dirceu tentou acordo com Portugal Telecom
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quinta-feira, 04 de agosto de 2005
Ranier Bragon e Silvio Navarro<br>Folhapress 
Brasília - O deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ) afirmou durante o depoimento à CPI do Mensalão que o ex-ministro José Dirceu (PT-SP) estaria tentando um acordo com a multinacional Portugal Telecom, em janeiro deste ano, para que fosse feito um aporte de R$ 24 milhões nos caixas do PT e do PTB. O acordo, segundo o próprio Jefferson, não se realizou. De acordo com o petebista, o tesoureiro informal do seu partido, Emerson Palmieri, e o publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza, acusado de ser o operador do mensalão, viajaram no final de janeiro a Lisboa com a missão de acertar o repasse do dinheiro.
Conversas mantidas entre Valério e Emerson no avião [dão conta] de que era uma coisa em torno de 8 milhões de euros, R$ 12 milhões para cada partido, afirmou. Jefferson repetiu ainda que Valério o procurou em março dizendo falar em nome do banco português Espírito Santo, acionista da Portugal Telecom, com a proposta de que ele, Jefferson, pressionasse o IRB (Instituto de Resseguros do Brasil) - presidido por um indicado no PTB - a transferir US$ 600 milhões de depósitos que tem na Inglaterra para o banco português.
A transação daria margem para que o banco atuasse em processos de reestatização de linhas de transmissão de energia com a Eletronorte - também presidida por um indicado do PTB -, o que renderia, segundo Jefferson, uma comissão de 3% para o PT e o PTB, algo entre R$ 90 milhões e R$ 120 milhões.
Na primeira quinzena de janeiro, (...) ele [Dirceu] falou: Roberto, credencia alguém do PTB para que vá com alguém do PT para a empresa Portugal Telecom, é um grupo que andou nos visitando aqui, e nós fizemos uma conversa de que [o grupo] pode antecipar recursos para ajudar a fechar o caixa do PT e do PTB, continuou Jefferson, citando suposta fala de Dirceu.
Foi o Palmieri. O Delúbio Soares [ex-tesoureiro do PT] mandou Valério e Rogério Tolentino [sócio de Valério]. Foram encontrar com o presidente da [Portugal] Telecom, Miguel Horta e Costa. Voltaram de mãos vazias, afirmou Jefferson, que disse não saber o motivo de a suposta transação não ter sido concretizada.
Agenda da Casa Civil mostra que Valério e um representante do Banco Espírito Santo se encontraram com Dirceu - então ministro - 13 dias antes da viagem a Lisboa.
Jefferson foi ainda irônico ao chamar Valério de embaixador carequinha do Brasil em Portugal para assuntos da área de telecomunicações. Segundo ele, o publicitário o procurou em março para tratar do IRB. Ele me procurou (...) para que o PTB influísse junto à presidência do IRB para pegar US$ 600 milhões e transferir para o caixa do banco do Espírito Santo em Portugal.
Segundo o petebista, a finalidade principal era dar estrutura de caixa ao banco português para que ele pudesse atuar na reestatização de linhas de distribuição de energia elétrica da Eletronorte. Algo em torno de R$ 3 bilhões, R$ 4 bilhões. Isso deixaria uma contribuição de 3% a nossos partidos, em torno de R$ 90 milhões a R$ 120 milhões, então teríamos nos próximos 60 dias R$ 45 milhões ou R$ 60 milhões, afirmou Jefferson.
O petebista disse ainda que nesse encontro, de março, Valério afirmou que a sua missão em Portugal passava também pela negociação entre a Varig e a estatal portuguesa TAP. A empresa européia chegou a negociar participação no capital da Varig, mas o negócio não se concretizou. As conversas passaram também por Varig/TAP. Isso eu sei porque me foi relatado nesse encontro, em meados de março, disse Jefferson.


