Cruzeiro D'Oeste - A queda da pomposa condição de ministro-chefe da Casa Civil para a de deputado federal na lista de prováveis cassados mexeu com o dia-a-dia do petista José Dirceu. Ex-braço direito do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o parlamentar depõe esta semana ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, em Brasília, sob a mira de ter sido o suposto epicentro do escândalo do mensalão. E, pelo jeito, os preparativos para o depoimento passaram longe de escritórios ou gabinetes em São Paulo ou mesmo na capital federal: Dirceu escolheu a bucólica Cruzeiro D'Oeste, no noroeste do Paraná (25 km de Umuarama), cidade cujo Executivo é comandado por seu primogênito, Zeca Dirceu (PT).
A Folha tentou falar com o ex-ministro nesse final de semana, mas ele não quis se pronunciar sobre o envolvimento de seu nome na maior crise política do governo Lula. Na casa do prefeito, por volta das 11 horas de sábado, a informação era a de que nem Dirceu nem Dirceu Filho estariam disponíveis para receber a reportagem - o primeiro porque ''só voltaria para ao almoço'', o que não ocorreu, e o segundo porque estaria dormindo. Duas horas depois, contudo, outra pessoa da residência informaria ao interfone que o deputado havia saído ''logo cedinho'' com Zeca.
As tentativas de abordagem foram abortadas pelo assessor parlamentar ''Marcelo'', que, taxativo, afirmou que o ex-ministro só falaria depois de depor no Conselho de Ética, amanhã. Desde que deixou o Governo, aliás, ele só tem se manifestado por meio de assessores ou notas.
Pelas ruas de Cruzeiro D'Oeste, a ordem do ''ninguém sabe, ninguém viu'' parece ser a tônica sobre a visita do ex-Homem Forte de Lula, como era conhecido entre os habitantes. Alguns comentam que nem sabiam da presença de Dirceu por ali; outros disseram que era questão de descanso, até porque na véspera, sexta-feira, havia sido aniversário da neta mais nova. Entre risos irônicos, contudo, uns poucos arriscavam que o ''o burburinho é que ele veio se esconder.''
Apesar do receio - já que vários entrevistados tinha amigos ou parentes na Prefeitura -, um ponto em comum nos comentários era o contraste da última visita de Dirceu à cidade, em janeiro. Na ocasião, ainda ministro-chefe, havia prestigiado a posse de Zeca em uma recepção calorosa, com discursos otimistas de auxílio futuro e festas animadas. Dessa vez, a decepção com o sonho caído por terra é o que parece falar mais alto.
''Ah, na campanha era bem mais animado quando o ministro vinha, até a gente ficava sabendo bem antes que ele vinha. Era pelo menos três dias de festa, e um prestígio bem diferente desses tempos de mensalão'', arriscou o fotógrafo Luiz Donati Correa, 42. Para a universitária Priscila Olmann, 20, ''a decepção é muito grande.'' ''A gente apostava muito que ter um prefeito filho de ministro seria positivo. Agora, o burburinho é que veio aqui para se esconder'', compara a jovem. Já o estudante Granamir Ramos Matias, 17, sequer notou diferença com o ex-ilustre-visitante. ''No período eleitoral era bem diferente, agora nem sabia que o pai do prefeito estava aqui.''
Na opinião do cabeleireiro Adonias Sodré, 55, contudo, a repercussão da crise nacional no pequeno município veio de uma forma ''intensa e triste.'' Ele se refere à queda no número de filiados petistas do diretório local, o qual ele presidiu de agosto de 2004 ao final de junho deste ano, quando Zeca o teria destituído do posto. ''Tínhamos 350 militantes, hoje não há nem 30% disso. E os que foram filiados preferem nem lembrar que foram - nossas raízes petistas estão envergonhadas'', arrematou.

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