Curitiba – O doleiro Alberto Youssef, um dos principais personagens da Operação Lava Jato, afirmou que o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e o atual tesoureiro do Partido dos Trabalhadores (PT), João Vaccari Neto, eram os responsáveis no partido para receber recursos provenientes de pagamentos de propina de empreiteiras envolvidas no esquema de corrupção dentro da Petrobras. Afirmação consta no depoimento prestado pelo doleiro no acordo de delação premiada firmado com procuradores do Ministério Público Federal (MPF).
Atualmente, o ex-ministro cumpre pena decorrente de condenação no processo do mensalão. Já o tesoureiro foi mencionado na nona fase da Lava Jato como um dos operadores mais atuantes dentro das irregularidades apontadas pelas investigações da Polícia Federal (PF). Vaccari não chegou a ser preso, mas foi conduzido até o órgão para prestar esclarecimentos sobre as acusações na semana passada.
"Antes de mandar o dinheiro a Julio Camargo (executivo da Toyo Setal e que também firmou acordo de delação), eu retinha o percentual devido ao Partido Progressista (PP), a Paulo Roberto Costa (ex-diretor de Abastecimento da Petrobras) e João Cláudio Genu (ex-chefe de gabinete do PP na Câmara). O dinheiro entregue em São Paulo servia para pagamentos da Camargo Corrêa e da Mitsue Toyo ao Partido dos Trabalhadores (PT), sendo que as pessoas indicadas para efetivar o recebimento à época eram João Vaccari Neto e José Dirceu", diz o doleiro no depoimento.
Em suas declarações, Youssef também destacou que Júlio Camargo, além de executivo, era responsável por instrumentalizar uma parte dos repasses para agentes públicos, ou seja, também atuava como operador. "Júlio Camargo possuía ligações com o PT, notadamente com José Dirceu e Antônio Palocci (ex-ministro da Fazenda)." O doleiro ainda completou que tinha conhecimento de que Camargo era proprietário de um avião Citation Excel, "que foi utilizado em diversas oportunidades por José Dirceu".
Youssef também explicou que Franco Clemente Pinto, identificado como "braço-direito" de Júlio Camargo, seria responsável pela contabilidade dos pagamentos ilícitos a título de propina e caixa dois. Tanto o nome ou o apelido do doleiro como de Dirceu constam nos registros desta contabilidade. "Franco tinha um pen-drive para armazenar todas as movimentações financeiras de Camargo, e eram utilizadas siglas em tal contabilidade ilícita, sendo que em relação a mim seria ‘primo’ e a de José Dirceu seria ‘Bob’."

DELAÇÕES

Os documentos foram anexados ontem ao inquérito principal da sétima fase da Lava Jato. Ao todo são 28 termos de colaboração referentes aos depoimentos de Alberto Youssef e outros 35 do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa. O juiz federal Sérgio Moro retirou o sigilo das delações e, em seu despacho confirmando a decisão, refuta qualquer possibilidade de vazamento. "Em virtude de certas incompreensões, esclareça-se que não se trata aqui de ‘vazamento’, mas de levantar o sigilo sobre prova em processo sobre o qual não foi decretado segredo de Justiça."
O magistrado, entretanto, reforçou que "não estão sendo liberados aqueles (depoimentos) que envolvem autoridades com foro privilegiado – que não são de competência deste Juízo e ainda estão sendo examinados pela Procuradoria Geral da República e pelo Supremo Tribunal Federal (STF)".
Para o advogado do doleiro, Antonio Figueiredo Basto, a publicidade de parte dos depoimentos prestados em regime de delação não atrapalha em nada a defesa. Ele ressalta ainda que a colaboração está sendo efetiva. "Tudo isso comprova a nossa tese de que isso tudo é um grande esquema de poder para manutenção de um grupo político. Na minha opinião as investigações devem chegar a um nível de poder tanto no Executivo como no Legislativo, nas mais variadas esferas", ressaltou.

RESPOSTAS

Em nota oficial divulgada em seu site, o ex-ministro José Dirceu informa que "repudia, com veemência, as declarações do doleiro Alberto Youssef, de que teria recebido recursos ilícitos do empresário Júlio Camargo, da Toyo Setal, ou de qualquer outra empresa investigada pela Operação Lava Jato". O ex-ministro também afirma que "nunca representou o PT em negociações com Júlio Camargo ou com qualquer outra construtora. As declarações são mentirosas". Dirceu ainda esclarece que, "depois que deixou a chefia da Casa Civil, em 2005, sempre viajou em aviões de carreira ou por empresas de táxi aéreo".
Também por meio de nota, o secretário nacional de finanças do PT, João Vaccari Neto, negou que tenha recebido qualquer quantia em dinheiro por parte de Youssef. "Dessa forma, são absolutamente mentirosas as afirmações feitas por esse senhor, em processo de delação premiada. Essa secretaria reitera que todas as doações que o Partido dos Trabalhadores recebe são feitas na forma da lei e declaradas à Justiça."

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