Brasília - O deputado e ex-ministro da Casa Civil José Dirceu (PT-SP) apresentou ontem sua defesa por escrito no processo de cassação que enfrenta, dizendo ser alvo de ‘‘acusações delirantes’’, que seriam ‘‘frutos exclusivos de uma mente doentia’’, a do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). José Dirceu alega que não há provas de que ele seria o mentor do suposto ‘‘mensalão’’ pago a deputados e contesta a possibilidade de ser julgado pelo Conselho de Ética, sob o argumento de que não exercia o mandato de parlamentar quando os fatos citados ocorreram.
  O ex-ministro deve entrar com pedido de liminar no Supremo para sustar o processo, a menos que o Conselho aceite seu argumento e liminarmente suste o processo, hipótese muito remota. ‘‘Espero que não precisemos recorrer ao STF, mas essa é uma medida de legalidade que não hesitaremos em usar’’, afirmou o criminalista José Luís Oliveira Lima, advogado do ex-ministro.
  Dirceu elencou cinco testemunhas em sua peça de defesa, de 23 páginas, a maioria ex-colegas de governo: o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), e os ex-ministros Eduardo Campos (Ciência e Tecnologia) e Aldo Rebelo (Coordenação Política) -este último, um antigo desafeto de Dirceu no Palácio do Planalto.
  A defesa espera que os quatro, que devem prestar depoimento público ao Conselho, avalizem a tese de Dirceu de inexistência de ‘‘mensalão’’. Bastos teria o bônus de emprestar sua credibilidade pessoal, tida pelo governo como expressiva, a Dirceu. Completa a lista de testemunhas o escritor Fernando Morais, amigo do ex-ministro há quatro décadas, que, de acordo com os planos de defesa, atestaria sua ‘‘biografia sem manchas’’.
  A defesa foi elaborada por Oliveira Lima e pelo especialista em direito eleitoral Fernando Neves. Foi finalizada ontem pela manhã, com a participação de Dirceu. ‘‘O representado [Dirceu] repele, com toda a veemência e de modo categórico, a prática dos atos sugeridos na representação, frutos exclusivos de uma mente doentia ou de mirabolante estratégia destinada a desviar o rumo da investigação que efetivamente merece ser feita’’, diz a defesa, em referência às acusações de participação de Jefferson em atos de corrupção nos Correios.
  A defesa de Dirceu diz que a representação de Jefferson é ‘‘inepta’’, porque não indicaria quais votações e deliberações teriam sido modificadas pelos supostos pagamentos a deputados, nem nomina estes parlamentares. Também diz serem ‘‘delirantes’’ acusações de que ele pagava parlamentares, e nisso recorre a depoimentos do publicitário Marcos Valério, que ‘‘mostra que nunca houve pagamento de fundos para parlamentares’’. Dirceu repete ainda que não tinha conhecimento dos empréstimos tomados pelo PT com a intermediação de Valério.
  Ao final, em um ‘‘desabafo’’, o ex-ministro diz que sofre processo político. ‘‘O que mais preocupa o representado é o precedente, a possibilidade de se cassar o mandato de um parlamentar não pelo que ele fez (e no caso nada se fez de irregular), mas pelo que ele representa.’’ Adiciona ainda um tom dramático. ‘‘Será isso bom para a Casa? O processo democrático, que já custou tanto sangue, estará sendo preservado?’’.

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