Brasília - José Dirceu, ex-deputado federal (PT-SP) e ex-ministro da Casa Civil, disse em entrevista à revista ‘‘Fórum’’ que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é um ‘‘personagem difícil’’. Ao falar de efeitos da crise política, disse que ‘‘não sobrou nada no governo’’. E citou ele e outros petistas que se enfraqueceram ou foram acusados na atual crise: ‘‘Luiz Gushiken [ex-ministro], Gilberto Carvalho [chefe-de-gabinete], Antonio Palocci [Filho, ministro da Fazenda José Dirceu’’.
  Indagado se algum ‘‘problema pessoal’’ com Lula tivera influência em seu afastamento da articulação política do governo em janeiro de 2004, Dirceu respondeu: ‘‘Uma mistura de coisas. O personagem é difícil. Está ficando claro isso’’, respondeu o ex-homem-forte do governo Lula. Petistas procurados ontem no Congresso evitaram comentar a entrevista de Dirceu. O Palácio do Planalto não se manifestou.
  À ‘‘Fórum’’, Dirceu disse ainda ter alertado Lula em 2004 do risco de ficar em minoria no Senado e na Câmara. ‘‘Falei para o presidente, três vezes no primeiro e no segundo semestre de 2004. Pedi a conversa com ele com o testemunho do Gilberto Carvalho. ‘‘Se o senhor quiser continuar com minoria no Senado e na Câmara, vão fazer uma CPI, qualquer CPI com o objetivo de desestabilizar o governo, desmoralizar, e o tema geralmente é corrupção’’’.
  Dirceu disse que deveria ter deixado o governo quando Lula decidiu bancar a política econômica de Palocci no final de 2004. Contou que a idéia era um período de transição, mas Lula insistiu. Agora, diz ele, ‘‘o Palocci quer um segundo ajuste. Está pedindo abertura comercial, CPMF fixa, ainda que com alíquota decaindo, 5% de superávit [primário], despesa corrente fixa, BC independente... A minha avaliação é que isso é inviável para um governo forte, um governo com maioria, ainda mais com um governo que está enfrentando um processo de desestabilização. A oposição saiu dos marcos democráticos’’.
  Dirceu bateu duro na oposição, disse que PFL e PSDB levaram recursos partidários e eleitorais ‘‘fazendo grandes negócios, privatização’’. Afirmou que ‘‘o PSDB é uma costela do PMDB e do PFL, não adianta eles quererem renegar’’. De acordo com ele, o PSDB é composto por ‘‘uma parcela inclusive do quercismo, grande parte de pessoas que participaram dos governos Quércia e Fleury são destaque no PSDB’’.
  Afirmou ainda que a oposição achou que ‘‘Lula não ia ter capacidade de ser presidente da República’’ e errou. Por isso, disse que tucanos e pefelistas ‘‘passaram a querer desestabilizar o governo’’. Na entrevista, declarou que deixou a articulação política por que se deu ‘‘conta de que presidente queria que [ele] saísse’’. ‘‘Se tivesse tido uma CPI no governo FHC, talvez ela tivesse se transformado em um processo de impeachment, e ele disse isso em vários jornais e revistas da época’’, disse.
  Ao comentar a campanha de TV e rádio do referendo sobre desarmamento, disse: ‘‘Todo mundo que apoiava o ‘‘sim’ na hora do enfrentamento político-ideológico se escondeu. Aliás, isso está virando uma norma no Brasil, se esconder na hora do enfrentamento, precisamos criar um ‘biotônico Fontoura’ ideológico no Brasil.’’

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