Brasília - Após receber a notificação de seu afastamento do cargo, Dilma Rousseff fez ontem um pronunciamento a jornalistas em que afirmou que pode ter cometido erros, mas não "crimes" e que, por isso, está sendo julgada "injustamente" em um processo que classifica de "golpe". Dilma foi afastada do cargo às 6h30 de ontem após uma sessão de quase 21 horas no plenário do Senado.
Dos 78 senadores presentes, 55 votaram contra Dilma e 22 a favor, com nenhuma abstenções. Era preciso maioria simples (ou seja, a maioria dos senadores presentes) para que o pedido fosse aceito.
"Posso ter cometido erros, mas não cometi crimes. Estou sendo julgada injustamente por ter feito tudo o que a lei me autorizava a fazer", disse Dilma. "Sofro agora a dor inominável da injustiça", completou a petista emocionada. "Jamais desistirei de lutar".
"Já sofri a dor invisível da tortura, a dor afetiva da doença e agora sofro mais uma vez a dor igualmente inominável da injustiça. O que mais doí neste momento é a injustiça. É perceber que sou vítima de uma farsa jurídica e politica", disse Dilma. "Posso olhar para mim mesmo e ver a face de alguém, que mesmo marcada pelo tempo, ainda tem força por lutar por seus crença s e direitos", completou.
Acompanhada de ministros, governadores e parlamentares do PT e da base aliada, Dilma disse ainda que a decisão do Senado em suspender seu mandato por até 180 dias trazia "riscos ao país". A presidente agora afastada disse que o impeachment é "fraudulento" e que seu governo foi "alvo de intensa e incessante sabotagem".
A petista repetiu o discurso de que foi eleita por 54 milhões de brasileiros e que a oposição, segundo ela, "inconformada com a derrota", "passou a conspirar" contra o seu mandato "impedindo a recuperação da economia" e para "tomar à força o que não conquistaram nas urnas".
Dilma repetiu que vai "lutar até o fim" para tentar recuperar seu mandato e governar até o último dia de 2018.
Ela fez também um chamado a seus apoiadores e disse que "a luta pela democracia não tem data para terminar". "Nós vamos vencer."
A presidente afastada na manhã de ontem por 55 votos a 22 trabalhou em seu discurso durante toda a quarta-feira . Consultou aliados próximos sobre o tom que deveria ser usado, mas escreveu de próprio punho as palavras de seu último pronunciamento antes de deixar o Palácio do Em seu Planalto.

PROCESSO
Agora, o Senado terá até 180 dias para julgar o mérito da acusação contra Dilma. Se o placar desta votação for repetido quando o Senado julgar o mérito da acusação contra a presidente, em até 180 dias, chegará ao fim definitivo desta era do PT no poder, iniciada com a posse de Luiz Inácio Lula da Silva em 2003. Isso porque são necessários, nesta etapa, 54 votos para Dilma perder o mandato presidencial. A presidente é acusada de editar decretos de créditos suplementares sem aval do Congresso e de usar verba de bancos federais em programas do Tesouro, as chamadas "pedaladas fiscais". Sua defesa entende que não há elementos para o afastamento.

HISTÓRICO
Afastada, Dilma segue o caminho de Collor (PTC-AL). Em 1992, o alagoano teve o impeachment aprovado na Câmara e Senado, e renunciou enquanto era julgado já afastado. Em 1999, o tucano Fernando Henrique Cardoso escapou da abertura do processo na Câmara. Desde a era Vargas (1930-45), três presidentes eleitos pelo voto popular não terminaram seus mandatos. O próprio Getúlio, que se matou em 1954 em meio a uma crise política; Jânio Quadros, que renunciou no mesmo ano em que tomou posse (1961); e Collor. João Goulart, que foi eleito vice de Jânio e depois empossado na Presidência, acabou derrubado por um golpe militar em 1964. Com Temer, o PMDB chega pela terceira vez ao poder desde a redemocratização, nunca pelo voto direto - foi antecedido por José Sarney (1985-1990) e Itamar Franco (1992-1994).

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