Brasília - Em meio à pressão de aliados para desconstruir a imagem da candidata do PSB à Presidência, Marina Silva, a presidente Dilma Rousseff abriu ontem uma nova frente de ataques à ambientalista, ao criticar a proposta da ex-senadora de governar com "os bons e melhores". Para Dilma, esse discurso é "simplista" - até aqui, a petista havia enfocado a falta de "experiência administrativa" da rival.

"Acho que essa distinção entre bons e maus é uma distinção muito complicada e simplista. Para mim, os bons neste país são aqueles que têm compromisso com distribuição de renda e inclusão social", disse Dilma ontem, ao conversar com jornalistas depois de participar de evento da Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura (Contag).

O evento de ontem foi feito sob medida para render imagens de Dilma nos "braços do povo" para o horário eleitoral - uma equipe de filmagem acompanhou cada passo da petista. Ela recebeu da Contag um documento com propostas elaboradas pelo movimento sindical, como acelerar a reforma agrária e consolidar a educação no campo, dois pontos frequentemente criticados pelos trabalhadores rurais. Marcado para o horário do almoço, contou com a presença de cinco ministros e um grande contingente de seguranças do Planalto.

"Para mim, o conceito de 'bons' tem de ter ligação com o compromisso. Todas as pessoas podem ser boas ou más, mas as boas pessoas podem não ter compromisso. A pessoa é muito boa, mas o compromisso dela é com outra coisa. Ela tem compromisso com o crescimento de 3% da população. Agora eu prefiro o bom com compromisso com a maioria da população brasileira", afirmou a petista.

O resultado das últimas pesquisas eleitorais preocupou o Palácio do Planalto, que vê em Marina uma ameaça real à reeleição de Dilma. Em vez de se concentrar apenas na comparação PT-PSDB e contrapor o passado ao presente, a presidente está sendo forçada a mirar Marina da mesma forma com que os tucanos têm feito. Além de Dilma, ontem o presidente do PT, Rui Falcão, também atacou indiretamente Marina. Em entrevista coletiva, questionado se Dilma teria de intensificar a campanha na rua, o presidente do PT disse que a presidente tem que governar o País. "Tem gente que acha que um cargo de presidente da República é só de representação. Não é", disse.

A consistência da candidatura de Marina dividiu anteontem os partidos que formam a coligação pela reeleição de Dilma. Enquanto PT, PCdoB e PDT insistiram que Marina deve perder força nas próximas semanas, as demais legendas sugeriram cautela e avaliaram que ela deve ser adversária da petista no segundo turno.

Já prevendo o embate com Marina no segundo turno, o ex-prefeito de São Paulo e presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, chegou a dizer que era fundamental já começar a construir pontes com o eleitorado tucano com a difusão do argumento de que Marina representa um risco para a estabilidade econômica. A ideia, contudo, não ganhou adeptos. Mesmo com as divergências de avaliação, os comandantes das legendas que apoiam a candidatura da petista pediram ajustes no tom da campanha diante do novo cenário eleitoral.

Um dos pleitos é que o programa de televisão, até o momento focado basicamente em apresentar o que foi feito pelas administrações do PT nos últimos 12 anos, adote um tom mais propositivo. Para transmitir a ideia de que a eventual eleição de Marina traria insegurança econômica, também deverá ser abordada a resistência da candidata socialista a grandes obras de infraestrutura no País, entre elas as hidrelétricas na região amazônica.

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