Imagem ilustrativa da imagem Diferenças políticas são a principal causa de tensão entre as pessoas
| Foto: Shutterstock



Debates que podem começar no campo das ideias, mas terminar com alguma indisposição ou até mesmo ofensas. Política, religião, comportamento, guerra dos sexos e até temas outros temas como futebol podem ser fonte de muita dor de cabeça, se não houver respeito sobre o posicionamento divergente. O clima de tensão em assuntos polêmicos foi medido por uma pesquisa realizada em 27 países no final de janeiro pela Ipsos, a terceira maior empresa do mundo no ramo de pesquisas. Os resultados do levantamento foram divulgados na semana passada.

O recorte escolheu oito temas dentre os que causam maior tensão entre as pessoas e, basicamente, permeiam a personalidade e o comportamento humano. Dentre quase 20 mil entrevistados, 44% escolheram as diferenças de opinião política como o assunto que causa maior tensão, seguido de diferenças entre ricos e pobres, tema escolhido por 36% dos participantes. Em terceiro lugar estão as diferenças entre imigrantes e a população nativa, tema apontado por 30% dos entrevistados na pesquisa.

A Ipsos também perguntou se os entrevistados acreditam que o seu país está dividido e três em cada quatro entrevistados (76%) responderam "sim". A população da Sérvia aparece em primeiro lugar (93%), seguidos pelos argentinos (92%). Com 90% em terceiro lugar estão Chile e Peru e o Brasil aparece em sétimo lugar com 84%, ao lado da Espanha, Polônia e Estados Unidos.

O professor de Ética e Filosofia Política da Universidade Estadual de Londrina, Clodomiro Bannwart, considera o período pós-guerra, "justamente quando houve o fortalecimento de instituições que visavam a defesa dos direitos fundamentais", como o embrião deste movimento que causou a polarização apontada na pesquisa. A principal ação seria o surgimento da ONU (Organização das Nações Unidas) em fevereiro de 1945, quando, inicialmente, 50 países assinaram a Carta das Nações Unidas.

"Na medida que nós temos uma abertura, começamos agora a viver um processo inverso", comenta. Foram movimentos que asseguraram bandeiras, geralmente de minorias e determinados segmentos que antes não tinham voz," lembra.

Imagem ilustrativa da imagem Diferenças políticas são a principal causa de tensão entre as pessoas



'NÓS CONTRA ELES'
Para Bannwart, de certa maneira, se há polarização é porque há uma tensão e se há uma tensão, há democracia. "Esta pesquisa mostra isso, até que existem grupos que tendem a polarizar para tentar dissipar a tensão existente. E você querer dissipar a tensão é justamente um atentado a própria democracia. Grupos tendem a polarizar e desqualificar o outro, produzindo um discurso de que existe esta polarização e tentando desconstruir o outro, não o reconhecendo como portador de direitos, através da autoridade e de comportamentos baseados na força", afirma.

"Para quem olha e diz que o Brasil é um país tranquilo e acolhedor é uma polaridade bastante forte. Tivemos 20 anos de política no País de dois grupos que se alimentaram no discurso do 'eu contra eles', e isso é obvio que vai formatar uma concepção de pensamento nas pessoas. E, na medida que estamos numa crise política, acho que a tendência é de acentuação nesta polaridade", afirma.

O também professor do Departamento de Filosofia da UEL, Elve Cenci, ressalta a juventude da democracia brasileira como fator preponderante para o resultado. "Na história brasileira até 1964 o máximo de participação de eleitores no processo político foi de 20%. Na verdade, nós nunca tivemos democracia no Brasil até 1988. No nosso passado nós também tivemos disputas e divergências que foram eliminadas pelo Estado, como Canudos e o Contestado. Então a nossa história é uma história que só teve um lado porque o outro foi calado ou eliminado. Este processo de respeitar o outro é muito recente e demorado", lembra.

Dentre os 27 países incluídos na pesquisa, os quatro latinos aparecem dentre os mais polarizados – Argentina, Chile, Peru e Brasil. Elve Cenci conta que a ascensão dos governos populares, chamados de "esquerda", explica o resultado. "Como agora nós temos uma guinada da direita, com políticas neoliberais e diminuição de políticas populares vemos a acentuação desta polarização", afirma.

Os resultados entre os brasileiros por pouco não repetiram as tendências de comportamento mundiais. Por aqui diferenças entre visões políticas foram a escolha de mais da metade dos entrevistados - 54%, e 40% escolheram as diferenças entre pobres e ricos. No terceiro lugar do ranking a questão migratória deu lugar à religiosa. No País que conta com a presença de mais de 130 segmentos religiosos diferentes, o tema aparece com 38% de preferência.

MENOS TOLERANTES
A pesquisa também questionou se os entrevistados acreditavam que o seu país estava mais dividido hoje em dia do que dez anos atrás, o que foi a percepção de seis em cada dez pessoas (59%). Além disso, em nenhum dos 27 países, o resultado apontou para uma menor divisão. No Brasil este índice ficou em 62%.

A percepção individual também foi questionada. No Brasil 45% afirmaram terem se tornado menos tolerantes na última década e somente 29% disseram tolerar mais hoje em dia culturas e visões de mundo diferentes do que quando o mundo vivia a crise econômica de 2008.

A boa notícia é que a maioria ao redor do mundo (65%) concorda que todos têm mais coisas em comum do que diferenças, sendo que entre os brasileiros este índice acompanha o global (61%).

Para os professores, a questão da tecnologia é primordial nestes resultados. "Criamos uma ferramenta do ponto de vista global que universalizou a forma como nós podemos nos relacionar mas acabou não universalizando os valores humanos. Na Europa isso é mais claro com a questão dos imigrantes, onde há o pensamento de que o outro vai roubar o que é meu. As redes sociais acabaram atestando uma insuficiência com relação aos valores universais e mostrando uma dificuldade de relacionamentos com posicionamentos diferentes", afirma Bannwart.

"Enquanto no debate físico as pessoas são mais moderadas, nas redes sociais há uma percepção de invisibilidade. As pessoas se encorajam a dizer o que quiserem e ofenderem, além disso a rede social permite a reunião entre os iguais e a exclusão entre os diferentes", lembra Cenci.

Quatro países latinos entre os mais polarizados
Dentre os 27 países incluídos na pesquisa, os quatro latinos aparecem dentre os mais polarizados – Argentina, Chile, Peru e Brasil. Elve Cenci conta que a ascensão dos governos populares, chamados de "esquerda", explica o resultado. "Como agora nós temos uma guinada da direita, com políticas neoliberais e diminuição de políticas populares vemos a acentuação desta polarização", afirma.
Os resultados entre os brasileiros por pouco não repetiram as tendências de comportamento mundiais. Por aqui diferenças entre visões políticas foram a escolha de mais da metade dos entrevistados - 54%, e 40% escolheram as diferenças entre pobres e ricos. No terceiro lugar do ranking a questão migratória deu lugar à religiosa. No país que conta com a presença de mais de 130 segmentos religiosos diferentes, o tema aparece com 38% de preferência. (V.S.)

No Brasil, 45% afirmaram que estão menos tolerantes
A pesquisa também questionou se os entrevistados acreditavam que o seu país estava mais dividido hoje em dia do que dez anos atrás, o que foi a percepção de seis em cada dez pessoas (59%). Além disso, em nenhum dos 27 países, o resultado apontou para uma menor divisão. No Brasil este índice ficou em 62%.
A percepção individual também foi questionada. No Brasil 45% afirmaram terem se tornado menos tolerantes na última década e somente 29% disseram tolerar mais hoje em dia culturas e visões de mundo diferentes do que quando o mundo vivia a crise econômica de 2008.
A boa notícia é que a maioria ao redor do mundo (65%) concorda que todos têm mais coisas em comum do que diferenças, sendo que entre os brasileiros este índice acompanha o global (61%).
Para os professores, a questão da tecnologia é primordial nestes resultados. "Criamos uma ferramenta do ponto de vista global que universalizou a forma como nós podemos nos relacionar mas acabou não universalizando os valores humanos. Na Europa isso é mais claro com a questão dos imigrantes, onde há o pensamento de que o outro vai roubar o que é meu. As redes sociais acabaram atestando uma insuficiência com relação aos valores universais e mostrando uma dificuldade de relacionamentos com posicionamentos diferentes", afirma Bannwart.
Elvi Cenci completa: "Enquanto no debate físico as pessoas são mais moderadas, nas redes sociais há uma percepção de invisibilidade. As pessoas se encorajam a dizer o que quiserem e ofenderem, além disso a rede social permite a reunião entre os iguais e a exclusão entre os diferentes." (V.S.)

mockup