O nhenhenhém político chegou ao dicionário. Para que os debates sobre o futuro do País não sejam apenas ‘‘fulanizados, sicranizados e beltranizados’’, como disse na sexta-feira o ministro da Fazenda, Pedro Malan, o educador Cristovam Buarque (PT), ex-governador do Distrito Federal, decidiu compilar palavras novas e até mesmo antigas que, na fronteira entre os séculos 20 e 21, passaram a ter uma interpretação menos ‘‘imexível’’.
São aproximadamente 600 verbetes reunidos em ‘‘Admirável Mundo Atual – Dicionário Pessoal dos Horrores e Esperanças do Mundo Globalizado’’, com lançamento previsto para agosto pela Geração Editorial. ‘‘Ler o mundo hoje é como caminhar depois de um bombardeio: o caminhante é obrigado a fazer seu próprio novo mapa’’, observa o autor.
O presidente Fernando Henrique Cardoso tem uma participação especial no dicionário. Sua colaboração involuntária está registrada no verbete ‘‘inempregável’’. O termo criado pelo presidente sociólogo surgiu durante um seminário sobre emprego e relações do trabalho, realizado em São Paulo, em abril de 1997. Na época, Fernando Henrique deixou a platéia perplexa ao dizer que ‘‘a globalização cria pessoas dispensáveis no processo produtivo, que são crescentemente inempregáveis’’. Nada poderia ser mais profético.
Em bom português, a referência aos inempregáveis segue o mesmo ‘‘caminho da roça’’ – aquele ressuscitado outro dia pelo próprio presidente – percorrido em 1990 pelo então ministro do Trabalho e da Previdência Social, Antônio Rogério Magri. Pouco depois de assumir o cargo e ainda embevecido pelo poder, o ex-sindicalista cunhou o termo ‘‘imexível’’ para definir o Plano Collor. Foi uma grita geral. Mas hoje, quem diria, ‘‘imexível’’ já consta do ‘‘Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa’’, da Academia Brasileira de Letras.
‘‘Se não tem tradição no idioma, imexível está conforme aquilo que alguns linguistas chamam a virtualidade ou potencialidade do idioma, isto é, aquilo que, ainda inédito, está de acordo com as regras do sistema linguístico’’, ensina o gramático e filólogo Evanildo Bechara. Defensor de Magri desde a primeira hora, Bechara argumenta que sempre houve ‘‘uma injustiça a ser reparada’’ com imexível, pois, dependendo da circunstância, ele desbanca concorrentes de peso, como intocável e intangível.
Poucos sabem, porém, que muitas das expressões que temperam o vocabulário político vêm dos índios. O nhenhenhém, por exemplo, usado a torto e a direito por Fernando Henrique para atacar seus críticos, tem origem tupi. ‘‘Nheeng nheeng quer dizer falar sem parar’’, afirma Eduardo Navarro, professor de tupi na Universidade de São Paulo (USP).
Quando a oposição grita que o País está na pindaíba, também recorre a um termo indígena. ‘‘Pindaíba é vara de pescar’’, comenta Navarro. A alusão feita é com a fome e a pobreza.
Na era da globalização, o professor se preocupa com a mistura do português com o inglês. ‘‘A última trincheira da identidade é a nossa cultura’’, constata. A opinião é compartilhada pelo presidente do PDT, Leonel Brizola, que jamais usa expressões norte-americanas. Conhecido por seu estilo nacionalista, Brizola é famoso por falar no sentido figurado – como o ‘‘sapo barbudo’’ atribuído a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da campanha presidencial de 89.
O partido de Lula parece ser o responsável pela maioria das incursões de Fernando Henrique no fértil terreno das invenções gramaticais. ‘‘O presidente tem um cacoete intelectual’’, define o ex-governador Cristovam. ‘‘Isso é muito perigoso para um político, por causa do risco de gafes, mas ao menos no meu dicionário ele entrou.’’

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