'Dicionário Lula' reúne frases que marcam a gestão do petista
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sábado, 15 de agosto de 2009
Roldão Arruda<br>Agência Estado 
São Paulo - O Brasil já teve presidentes que detestavam falar em público. O general Emílio Médici, que comandou a nação entre 1969 e 1974, foi um. ''Presidiu o País em silêncio, lendo discursos escritos pelos outros'', anotou a seu respeito o jornalista Elio Gaspari no livro ''A Ditadura Escancarada''. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai na direção oposta. Adora falar. Discursa, dá entrevistas e fala no rádio com tanta voracidade que tem chance de acabar o seu governo dizendo que ''nunca antes neste país alguém discursou tanto...''
Foi toda essa falação presidencial que constituiu a matéria-prima do jornalista Ali Kamel na realização do livro ''Dicionário Lula - Um Presidente Exposto Por Suas Palavras'' (Editora Nova Fronteira), que está chegando às livrarias. É uma iniciativa ousada e bem executada de se definir o que realmente pensa o primeiro mandatário, a partir do que ele diz.
O livro põe abaixo ideias preconceituosas, confirma com fartura de informações coisas que alguns acadêmicos já sabiam e, sobretudo, expõe o homem de corpo inteiro, com suas contradições, crenças e estratégias políticas.
Kamel, que é diretor da Central Globo de Jornalismo, utilizou apenas as falas feitas de improviso pelo presidente - nos períodos de janeiro de 2003 a maio de 2008 e de setembro de 2008 a março de 2009. Foi um cartapácio de 1554 textos, que ele triturou e classificou, isolando as palavras mais significativas e recorrentes da retórica presidencial. Assim surgiu o dicionário do título - um conjunto de 354 verbetes, de ''aborto'' a ''vontade'', passando por ''José Serra'', ''mensalão'' e outros.
O verbete mais gordo é o que fala de Lula. Não pela preferência de Kamel, mas porque Lula adora falar dele mesmo. São 25 páginas, que podem ser lidas como uma espécie de miniautobiografia, na qual reluz a infância miserável e a vida de operário.
Lula tem noção clara da importância de sua história, improvável história de um menino miserável que se torna presidente, para aproximar, estimular, impressionar as pessoas e consolidar sua imagem. Em 2006, diante da elite econômica do planeta, em Davos, ele disse: ''Sou de uma terra onde, se as pessoas não morrem até completar um ano de idade, já é um milagre. E eu não morri, cheguei a presidente.''
Kamel chama a atenção para o sentimento de predestinação que inunda o presidente - como se o fato de ser o primeiro operário a morar no Planalto já fosse suficiente para tornar seu governo melhor. Daí o excesso de expressões como ''nunca antes na história'', ''desde Cabral'', ''desde a Proclamação da República''. No conjunto de 1554 textos, Lula usa esses bordões em 880.
Kamel também investiga se há coerência nas falas de Lula. Constata que é coerente em alguns casos; e incoerente na maioria das vezes. Exemplo de coerência é a insistência em dizer que seu governo cuida dos pobres. De cada dez discursos, seis contêm referências ao combate à pobreza. Mas ele é incoerente na hora de definir as políticas sociais. No início do governo, criticou o fato de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, distribuir dinheiro à população pobre por meio de vales, como o auxílio para a compra de gás e o Bolsa-Escola. Passados sete meses, criou o Bolsa-Família, ampliando os programas de transferência de renda.
Lula não é o primeiro governante a se apresentar como predestinado (Jânio Quadros subiu como foguete fazendo isso), nem o primeiro pai dos pobres (Getúlio Vargas ainda ocupa o primeiro lugar no panteão). Ele é imbatível, porém, no campo da linguagem. Kamel mostra que o ex-menino miserável sabe usar como ninguém a linguagem das ruas, com suas metáforas simples, vocabulário amplo e de fácil compreensão, para falar com os brasileiros. Nunca, jamais na história, houve presidente que falasse como ele.
AS INCOERÊNCIAS DO PRESIDENTE
TRANSFERÊNCIAS DE RECURSOS PARA POBRES
- ''Antigamente, quando chovia, o povo corria logo para plantar o seu feijão... Agora tem gente que não quer mais isso, fica esperando o vale-isso, o vale aquilo, as coisas que o governo criou.'' Lula disse em abril de 2003
- ''As pessoas não ficam mal acostumadas, não, pelo contrário. O acesso às necessidades básicas aumenta a autoestima e elas vão querendo ter outras conquistas na vida.'' (Dezembro de 2007)
IMPRENSA
''Eu vou te dar um conselho de quem aprendeu fazer isso há muito tempo: o que é importante é a gente ler todos os jornais que puder por dia.'' (Outubro de 2005).
- ''Tenho não (hábito de ler jornais todos os dias), eu não tenho isso faz tempo. Não que não dá, é que eu não quero fazer... Eu tenho problemas de azia.'' (Dezembro de 2008)
O PT E O MENSALÃO
- ''Eu não tenho vergonha nenhuma de dizer ao povo brasileiro que nós temos que pedir desculpas. O PT tem que pedir desculpas.'' (Outubro de 2005)
- ''Se 3, 4, 6, 10, 15 ou 20 pessoas de uma organização política cometem erros não significa que o partido inteiro está cometendo.'' (Janeiro de 2006)


