Brasília Brasília é a única cidade do País que não terá eleição este ano, mas governar o Distrito Federal é o sonho de dez em cada dez candidatos a prefeito ou a governador. O governo do Distrito Federal, ou GDF, como é conhecido, tem a maior receita per capita do País: pode arrecadar, ao mesmo tempo, impostos exclusivos dos Estados (ICMS) e dos municípios (IPTU) e, além disso, recebe repasses generosos do Orçamento da União, pela sua condição de capital federal.
No ano passado, foram transferidos R$ 3,9 bilhões dos cofres federais para o fundo constitucional que cobre as despesas de saúde, educação e segurança do DF. Dinheiro de impostos federais cobrados de todos os brasileiros e que serve para financiar os gastos do governo local. Nem por isso quem vive no DF têm serviços públicos melhores do que em outras partes do Brasil.
O gasto com saúde no GDF chega a R$ 550 por habitante, o maior do Brasil e duas vezes maior do que o de São Paulo, mas esse número aparentemente positivo contrasta com a real condição de atendimento da rede pública. No Hospital de Ceilândia, o maior do Distrito Federal, 300 médicos são responsáveis pelo atendimento de uma região de periferia onde vivem 400 mil pessoas, afora outros 400 mil moradores de cidades goianas que não possuem unidades de saúde e recorrem à capital.
Apesar do governo do DF ter elevado seus investimentos nos últimos anos, construindo uma das pontes mais modernas do País sobre o Lago Paranoá, a população das chamadas ''cidades satélites'' (periferia) convive ainda com a falta de infra-estrutura sanitária. Em 2002, por exemplo, em plena campanha pela reeleição, o governador Joaquim Roriz (PMDB) investiu R$ 72 por habitante no saneamento básico, enquanto em capitais como Porto Alegre, por exemplo, essa despesa chegou a R$ 192 per capita.
Mesmo no Plano Piloto, núcleo planejado e mais valorizado de Brasília, é possível identificar sinais da precária ação governamental. O caminho entre os prédios próximos da Esplanada dos Ministérios não tem calçamento, as opções de transporte coletivo são restritas e os ônibus antigos cospem fumaça na cara dos transeuntes sem qualquer fiscalização das autoridades. Essa situação contrasta com a aparente folga fiscal do governo local.
O GDF arrecada entre impostos e transferências da União R$ 3.339,60 por habitante durante o ano, mais do que em qualquer outra unidade da federação, mesmo quando somadas as receitas per capita das prefeituras das capitais com a dos governos estaduais. Em São Paulo, por exemplo, o governo estadual arrecada R$ 1.362,76 por habitante, e a prefeitura da capital mais R$ 906,77 (incluindo 25% do ICMS já contabilizado na receita do Estado).
Neste ano, Brasília também começou a receber os repasses do governo federal referentes à repartição da receita livre da contribuição sobre combustíveis (Cide), com uma peculiaridade: embolsa duas parcelas, a dos Estados e a dos municípios. Como resultado, deve ganhar até o final do ano cerca de R$ 23 milhões da Cide, enquanto a capital paulista, com uma população cinco vezes maior, terá R$ 13 milhões.
''Governar o Distrito Federal é o desejo de consumo de qualquer prefeito, pelo que jorra de recursos de todo o Brasil para a capital, alimentando boa parte dos escândalos de desvio de verbas que estamos acostumados a ouvir'', afirma o presidente da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), prefeito Paulo Ziulkoski (PMDB), do mesmo partido do governador Roriz.
A fartura de receita é tanta que o governo do DF, ao contrário da maioria das prefeituras de grandes cidades e governos estaduais, não oferece desconto para quem aceita antecipar o pagamento do IPTU e do IPVA dos automóveis. Mas seu gasto com pessoal também é um dos maiores do País proporcionalmente à população: R$ 5 bilhões para pouco mais de 2 milhões de habitantes.

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