Desfiles no Rio lembram Prestes, repressão e MST
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de janeiro de 1998
J. Paulo da Silva e Sílvio Barsetti 
Agência Estado
Os carnavalescos das escolas de samba decidiram este ano mostrar que samba e política têm algo em comum. Das 14 agremiações do grupo especial, oito abordam direta ou indiretamente em seus enredos assuntos políticos: igualdade social; a história do líder comunista Luiz Carlos Prestes; a trajetória do compositor Chico Buarque, principalmente o período em que foi vítima da repressão do regime militar; o negro na política; crimes do colarinho branco, a luta dos sem terra, entre outros.
A intenção não é criar ideologias à Ópera de Rua, como os sambistas definem o desfile, mas chamar a atenção do público para os problemas do Brasil, sobretudo num ano eleitoral. O alerta pode até não ser percebido por muitos desatentos, ligados apenas à empolgação da festa que será transmitida para mais de um milhão de telespectadores do pool de tvs formado pelas Redes Manchete e Globo e para o público estimado em 130 mil pessoas que assistirá ao desfile na Marques de Sapucaí, nos dias 22 e 23 de fevereiro.
São temas que mostram a vida real, as realidades do Brasil, resume José Carlos Rêgo, crítico de carnaval, autor do livro Dança do Samba - Exercício do Prazer. A Mangueira e a Grande Rio se destacam com enredos que enfocam períodos importantes da história do Brasil neste século. A Estação Primeira pretende explorar bem em seu enredo Chico Buarque da Mangueira toda a vida de Chico Buarque, levando à Passarela dois carros alegóricos e algumas alas que vão representar a repressão e a ditadura militar nas décadas de 60 e 70.
Vamos mostrar que, apesar da democracia, muita coisa vem acontecendo por baixo dos panos, diz o carnavalesco Alexandre Louzada, da Mangueira. Uma das alegorias que a Mangueira deverá exibir no desfile é um tanque de guerra. Ele viria acompanhado de uma ala em que policiais reprimem manifestantes de rua - tudo coreografado no ritmo do samba cantado pelo intérprete Jamelão. Para ver a banda passar, é impossível omitir a briga de Chico Buarque com os donos do poder naqueles anos de chumbo, continua Louzada.
José Rainha e Diolinda Alves - dirigentes do Movimento dos Sem-Terra (MST) - estão sendo aguardados na ala dos sem-terra que deverá ser uma das mais badaladas da Grande Rio. Eles e mais algumas dezenas de camponeses vão aproveitar o desfile para exigir urgência do governo federal à reforma agrária. Os dirigentes da escola de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, não temem o uso político do enredo Cavaleiro da Esperança. Prestes, o nosso homenageado, queria reforma agrária e a Grande Rio defende o que está no seu enredo, afirma o presidente da escola, Hélio Ribeiro de Oliveira.
Uma das alas da Grande Rio virá com 120 componentes - 60 dos quais praças e oficiais da Aeronáutica, Exército e Marinha - que simularão três formas de combate militar em terra. A única pendência na Grande Rio é a possibilidade de a ex-militante do MST, Débora Rodrigues, estar na passarela. Ela foi convidada pela direção da escola, mas tem sua presença reprovada pelos parentes de Prestes.


