'Desde o começo eu acreditava que estava fazendo a coisa certa'
O depoimento que serviu de base para Operação ZR3, deflagrada há um mês, foi do agricultor Junior Zampar, proprietário de uma área na Gleba Lindoia (zona leste) que estava negociando a venda do terreno para uma loteadora, mas esbarrava na lei de zoneamento. Ou seja, precisava transformar a área de ZI-2 (zona industrial) para ZR-3 (zona residencial). Em entrevista à FOLHA, o agricultor revelou os bastidores das negociações, a tensão vivida pela família e o balanço que faz por ter sido denunciante do suposto esquema. "Desde o começo eu acreditava que estava fazendo a coisa certa. Medo? Medo a gente tem porque estava gravando tudo. Mas não tem como essas pessoas dizerem que não era bem isso. Eu só me arrependo de não ter feito antes", revela.
A venda da área estava sendo negociada com uma empresa do setor imobiliário interessada em lotear área. "Somos agricultores, estávamos apenas tentando vender nosso terreno com uma condição melhor e não tem nada de ilegal em agregar valor a nossa área", disse ao lembrar das dificuldades que a família passou durante as negociações.
Segundo Zampar, em 2012 ele foi apresentado a Mario Takahashi por um primo. Era em período eleitoral e toda família teria dado apoio na campanha. "Eu cheguei a colar adesivo dele no meu carro." No ano seguinte, com interesse de entender o processo de mudança de zoneamento, Zampar conta que em novo encontro com Takahashi (junto com seu primo, no Jardim Ideal), o vereador pediu R$ 1 milhão de reais para poder ajudá-lo na tramitação do projeto de lei. "Ele foi bem direto ao ponto, disse que a coisa pública é assim mesmo não anda. É complicado. Na mesma hora eu disse não, não pago. Para mim foi uma surpresa, não estava preparado para isso".
Em 2014, a família Zampar tentou protocolar o pedido de mudança de zoneamento, sem ajuda de vereadores, mas a solicitação não prosperou na Câmara.
Já em fevereiro do 2017, o agricultor foi procurado pelo Ministério Público e passou a colaborar com as investigações da Operação ZR3, gravando todas as conversas com os envolvidos. "Nossos vizinhos (empresários, réus da ação) disseram que o caminho para mudança seria através do Luiz Guilherme e o vereador Rony". A partir daí os encontros ocorriam no gabinete do vereador, junto com o assessor parlamentar Evandir Aquino. "Foi quando pediram o orçamento do EIV (Estudo de Impacto de Vizinhança) R$ 100 mil mais sete terrenos (que somavam R$ 1,6 milhão) para fazer a coisa andar. Esse trabalho político que não tem que ter na verdade", disse.
Segundo Zampar, o servidor público Ossamu Naminagakura (diretor de loteamentos da Secretaria de Obras) "criava dificuldades para vender facilidades". "Fomos duas vezes lá e ele não explicava os reais motivos que não permitiam mudar o zoneamento da área, sendo que temos vizinhos que conseguiram mudar para ZR3", conta.
Para o agricultor, a conversa mais comprometedora gravada foi com a ex-presidente do Ippul, Ignês Dequech. Ele conta que ela se apresentou e foi até a fazenda da família no dia 2 de outubro do ano "Quem escancarou tudo foi a Ignes que contou que tinha propina no esquema." Ele alega que Ignês pediu R$ 120 mil mais 1% dos terrenos, o que daria ao menos R$ 3 milhões para realizar o EIV.
Somente a esposa, o pai e um amigo próximo sabiam que Zampar estava colaborando com as investigações do Gaeco e o apoiaram como denunciante, vítima do suposto esquema de corrupção. "Alguns primos não estão conversando comigo porque acham que agora teremos mais dificuldades para vender o terreno. Eu acho justamente o contrário. É difícil para quem é sem vergonha. Para quem é honesto, é possível fazer as coisas pelos trâmites certos. Estávamos negociando a venda com uma empresa idônea. Não justifica pagar propina. Mas empresários desse setor ficam refém desses vereadores e agentes públicos. Isso porque do contrário a coisa não anda."
O denunciante cobra justiça também na Câmara e revela que está disposto a depor como testemunha. "O mínimo que os demais vereadores devem fazer é cassar os mandatos desses vereadores, o mínimo", concluiu. O processo protocolado na Câmara para pedido de abertura de Comissão Processante está na Mesa Executiva, que abriu prazo para defesa dos vereadores afastados.(G.M.)





