Desafio é o enfrentamento social
Desafio é o enfrentamento social
Os 20 anos da Lei da Anistia devem ser vistos como um convite ao enfrentamento da exclusão social. A análise é do ex-preso político Narciso Pires (foto), 49 anos, de Curitiba, atual coordenador do Movimento Nacional dos Direitos Humanos. Pires, que foi presidente do Comitê Brasileiro pela Anistia, diz que não tira da memória as primeiras passeatas organizadas a partir de 1978 desafiando o regime militar. Nós, de um lado, a tropa de choque do outro, recorda.
Para ele, as duas décadas da anistia servem para uma reflexão sobre a conquista da liberdade democrática e os avanços para mudar o País com justiça social. Mas, se um por um lado as liberdades políticas estão melhor asseguradas, de outro vemos violações aos direitos econômicos, sociais, culturais e humanos, praticamente todas as áreas, constata.
A tão propalada justiça social pregada nas passeatas e nos protestos dos chamados anos de chumbo também continuam fazendo parte do discurso atual não só das esquerdas, mas de movimentos organizados, sindicatos e de entidades não governamentais. Pode um desempregado ter assegurado seu direito social? É claro que não, mas é justamente nesse quadro que a comunidade deve se envolver para discutir caminhos e enfrentar a exclusão, prega Pires.
Ele lembra que a violação aos direitos do cidadão ocorre diariamente: com o desemprego, a concentração de terra, o aumento do preço dos remédios e a falta de políticas de combate à pobreza, entre outras medidas. É preciso lutar por políticas públicas e privadas que gerem renda. Não basta apenas gerar emprego, avalia.
Na opinião de Pires, cada um deve se sentir responsável e lutar contra a exclusão social. Ele acredita que a sociedade e o governo deveriam colocar em sua pauta de prioridades a batalha pela reforma agrária, a campanha de luta contra a miséria, a valorização do produto nacional, a manutenção dos postos de trabalho em postos de gasolina e em ônibus do transporte coletivo, evitando a introdução do auto-serviço nos postos e a colocação de catracas eletrônicas, além da da implantação de projetos de renda mínima e de bolsa-escola.
Pires começou sua atuação política em 1967, com 17 anos, em Apucarana. Presidiu a União de Estudantes de Apucarana e militou na dissidência do Partido Comunista Brasileiro. Era do grupo de Idésio Brianezi e de Antônio Três de Oliveira, os dois estudantes mortos durante o regime militar. Recentemente, a família deles foi indenizada através de uma lei do governo federal.
O grupo era integrado ainda por Francisco Dias Vermelho, que morreu anos depois, acidentalmente. Pires ficou preso em Curitiba de 1975 a 1977 e sofreu torturas físicas e psicológicas. Depois, ele foi um dos contemplados com as indenizações pagas pelo governo do Paraná aos ex-presos políticos. A tortura deixa marcas profundas. Fantasmas e marcas ficam para sempre. Vamos carregá-los até os últimos dos nossos dias, lamenta. (P.Z.)





