Logo depois de o ex-senador Antonio Carlos Magalhães renunciar ao cargo e deixar o plenário, seus desafetos subiram à tribuna do Senado para rebater os ataques. Enquanto ACM recebia a solidariedade de aliados no gabinete, o senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT), no plenário, o chamava de ‘‘chantagista, traidor e mentiroso’’.
Os adversários de ACM protestaram contra o ‘‘discurso moralizante’’ do ex-senador. ‘‘Ele zombou da inteligência nacional: veio aqui dar aula de moralidade’’, afirmou Paes de Barros.
O senador Roberto Freire (PPS-PE), inimigo político de ACM, não se conteve. Durante o discurso de renúncia protestou – fora do microfone, mas em voz alta – contra os ataques de ACM ao senador Saturnino Braga (PSB-RJ), relator do processo de investigação da violação do painel eletrônico.
‘‘Quem ele pensa que é? Ele não tem autoridade moral para dar lição’’, afirmou Freire, dirigindo-se alternadamente aos senadores Tião Viana (PT-AC) e João Alberto Souza (PMDB-MA). Durante o discurso de ACM, Freire não escondeu o desconforto mais tarde declarado da tribuna. No plenário, era um dos mais agitados.
‘‘Ele chamou o Saturnino de faccioso, e nós ouvimos calados. Nós ouvimos calados lição de moral de quem não tinha moral para dar lição’’, disse o senador da tribuna. ‘‘A renúncia não tem motivo nobre. Foi uma mera fuga para evitar a cassação, como fizeram os anões do orçamento’’, afirmou Freire, referindo-se aos deputados que manipulavam o Orçamento da União e renunciaram ao mandato para não serem cassados.
A senador Heloísa Helena (PT-AL), acusada por ACM de ter votado contra a cassação de Luiz Estevão (PMDB-DF), foi a primeira a subir à tribuna. A petista fez um discurso emocionado, no qual citou poema de Carlos Marighela, chefe de um dos principais movimentos de resistência ao regime militar brasileiro na década de 60.
Heloísa Helena afirmou que, enquanto o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar iniciava um julgamento político de ACM, ‘‘o povo o julgou por sua história de trevas, de sombras, de arrogância e de dissimulação’’.
Depois de Heloísa Helena, Antero Paes de Barros subiu à tribuna e narrou fatos da vida pública de ACM, que na opinião do senador mostram suas principais características: chantagem, traição e mentira. Ele lembrou, por exemplo, que ACM ‘‘traiu’’ o ex-presidente José Sarney (PMDB-AM), do qual foi ministro, para apoiar Fernando Collor.
Atacado duramente por ACM, o presidente do Conselho de Ética, Ramez Tebet (PMDB-MS), se defendeu afirmando que o ex-senador ‘‘destilou ódio’’ da tribuna e que tem ‘‘orgulho’’ de sua origem. ACM o chamou de ‘‘rábula do Pantanal’’.
‘‘Não posso ouvir impunemente que sou rábula do Pantanal. Tenho orgulho da minha origem. Deus me deu a alegria de nascer no Pantanal. Recuso-me a mergulhar em outro tipo de pantanal: no pantanal de mentiras’’, disse.
Para o senador Pedro Simon (PMDB-RS), que ACM acusou de ter usado o Conselho de Ética para aparecer, a renúncia marca o fim do coronelismo. Ao líder do PFL no Senado, Hugo Napoleão (PI), coube a missão de defender ACM. Ele reclamou que os senadores usaram a tribuna depois da renúncia, o que impedia o ex-senador de rebater as críticas.
Saturnino Braga não fez discurso no plenário, mas respondeu com elegância às declarações de ACM. ‘‘Não vou rebater. A gente bate quando precisa bater. Bater em quem está saindo derrotado não tem sentido’’, disse. O senador foi irônico ao comentar a decretação de falência da Prefeitura do Rio de Janeiro, quando ele ocupava o cargo de prefeito: ‘‘Ele deve ter vasculhado seu arquivo de dossiês, não encontrou nada e veio com ataques pessoais’’.
Já o líder do Bloco Oposição no Senado, José Eduardo Dutra (PT-SE), disse que ACM não tem moral para sequer criticar a política econômica do governo porque, durante seis anos, lhe deu sustentação, como membro da base aliada do governo. Dutra opinou, no entanto, que o discurso ‘‘foi combinado’’ com o governo porque, no geral, ACM foi brando nas críticas. No mais, Dutra disse que foi um discurso de início de campanha para a disputa de um novo mandato, pois ninguém pode ignorar que ele tem base de apoio na Bahia.

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