Derrota do mínimo agrava crise entre ministros
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sábado, 19 de junho de 2004
Vera Rosa e Diana Fernandes<br>Agência Estado 
Brasília A derrota sofrida pelo governo na votação do salário mínimo aprofundou a guerra fria entre os ministros da Casa Civil, José Dirceu, e da Coordenação Política, Aldo Rebelo. No quarto andar do Palácio do Planalto, a poucos metros do gabinete de Rebelo, Dirceu continua dando demonstração de força. ''Você acha mesmo que eu estou enfraquecido no governo?'', perguntou ele à repórter da Agência Estado, na sexta-feira. ''Espere e verá.''
O ministro nega que esteja deprimido, irritado ou abatido e jura não ter ouvido nenhuma reclamação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a disputa travada entre ele e Rebelo. ''Jamais. Até porque eu não tenho nada a ver com intrigas'', garantiu. ''Isso é conto da carochinha''.
Lula admite que a articulação política do governo precisa de um chacoalhão, mas não quer mexer nem em Dirceu nem em Rebelo, ao menos até o fim do ano. O presidente ainda acredita no armistício. Acha que os dois podem se entender e superar as dificuldades. ''Vamos fazer um esforço concentrado para que isso aconteça'', diz um importante assessor de Lula.
Na prática, a disputa entre os ministros resultado da partilha da Casa Civil e, com ela, dos nichos de poder o que provocou tensão nas relações do governo com o Congresso. Mas não foi isso que selou a derrota do mínimo de R$ 260 no Senado. É crônica e já conhecida de todos a origem do problema do Planalto com o Legislativo: não são boas as relações de Lula com os senadores porque seu governo nunca prestigiou a Casa.
O fato mais lembrado nos momentos de crise é que apenas dois senadores Marina Silva e Amir Lando são ministros, enquanto sete deputados ganharam cargos no primeiro escalão da Esplanada. É por essas e outras que tanto se fala numa reforma ministerial depois das eleições municipais de outubro.
''A crise iria mesmo explodir a qualquer momento. Passado o susto, é preciso agora pensar numa maioria em novas bases. Esta derrota traz um aprendizado: não há dúvida de que o governo precisa melhorar o padrão de seu relacionamento com o Senado, até porque a correlação de forças aqui nos é desfavorável'', reconhece o líder do governo, senador Aloízio Mercadante (PT-SP). Para ele, as disputas fratricidas na equipe pioram o clima e fazem subir a temperatura, mas o problema não está única e exclusivamente nesse capítulo. ''Eu acho que Lula tem que olhar mais para o Senado. Eu já disse isso a ele. Os senadores querem ter espaço na agenda do presidente.''
Na outra ponta, o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), diz que, além da insatisfação de seus pares com a falta de atenção do Planalto, a indefinição do comando da articulação política do governo colaborou, sim, para o fracasso de quinta-feira. ''O presidente Lula tem que zerar o jogo e tentar construir uma maioria sustentável. Mas antes é preciso definir claramente o modelo da coordenação política, que não está claro.''
Uma coordenação política atuante e preocupada em sustentar uma maioria governista no Congresso também precisa estar de olho nas eleições municipais. Renan voltou a cobrar melhor relação do PT com candidatos dos partidos aliados nos Estados. ''A sustentação política é complexa, depende de vários fatores. Inclusive do comportamento adequado dos candidatos petistas'', ressalva.


