A cada dois anos, a disputa eleitoral pelo comando da Câmara Federal traz à tona todas as queixas sobre as condições de vida e de mandato do deputado e o salário que ele põe no bolso. Para a maioria deles, essa discussão é imperativa, mas também indigesta. Na verdade, o mesmo salário que representa a única fonte de renda da maior parte dos parlamentares é inexpressivo na conta bancária de uma pequena parcela de milionários com mandato.
Mas o curioso é que a banda rica do Legislativo, embora não dependa do salário bruto de R$ 8 mil (em torno de R$ 4 mil líquidos) para sobreviver, preocupa-se e defende a melhoria das condições de vida dos colegas da banda mais pobre. As desigualdades sociais expostas reforçam a solidariedade dos colegas endinheirados, que revelam usar todo seu salário de parlamentar para bancar gastos com eleitores e até atos de caridade.
Dono de um dos maiores patrimônios do Distrito Federal, que compreende oito empresas na área de construção, hotelaria, concessionárias de veículos e shopping centers, o deputado Paulo Octávio (PFL-DF), de 50 anos, é um dos que destinam o salário da Câmara para custear atividades parlamentares. Ele recebe em seu gabinete de 20 metros quadrados pelo menos 50 pessoas por semana.
Paulo Octávio construiu seu império sozinho. ‘‘O salário é pequeno em relação à responsabilidade que tem o deputado e as despesas que envolvem a atuação parlamentar’’, observa. Salário justo para o parlamentar, para ele, seria equivalente a US$ 5 mil líquidos.
Vice-líder do PMDB, o deputado Eunício Oliveira (CE) entrou na vida política há dois anos, seguindo os passos do pai e do avô. Começou a trabalhar aos 13 anos numa fábrica de biscoitos no Ceará e chegou aos atuais 48 anos como proprietário de oito empresas que renderam R$ 120 milhões de faturamento bruto em 1999. Sua renda lhe permite sustentar 72 idosos acomodados num prédio que mantém como pessoa física na cidade natal de Lavras da Mangabeira (CE).
‘‘Não consigo entender como um parlamentar consegue viver com um salário desses e pagar despesas de duas residências (a de Brasília e a do Estado) além dos gastos da atividade parlamentar’’, sustenta o senador Pedro Piva (PSDB-SP), de 55 anos, um dos sócios majoritários das empresas do Grupo Klabin. O senador certamente não conseguiria, com o padrão de vida que mantém.
Por questões morais, Pedro Piva evita socorrer a todos os que vão a seu gabinete atrás de ajuda financeira. O mesmo não ocorre com o colega senador Ney Suassuna (PMDB-PB), de 59 anos. ‘‘Faço parte da turma dos ricos bestas: gasto quatro vezes mais o que ganho líquido no Senado, atendendo pedidos de pessoas que vêm ao meu gabinete’’, garante Suassuna, outro abastado parlamentar proprietário de 10 empresas. Antes de tornar-se senador, há seis anos, Suassuna passava quatro meses do ano viajando. Agora, reduz seus momentos de lazer a pintar e escrever poesias.

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