Brasília - A advertência do presidente nacional do PT, José Genoino, de que o governo precisa ouvir mais o partido liberou insatisfações represadas de parlamentares petistas. ''Há um autoritarismo do governo e do Poder Executivo. A bancada não é ouvida'', disse a deputada Iara Bernardes (PT-SP). ''Se o governo nos procurasse, haveria mais qualidade nos projetos e nas medidas provisórias (MPs). Temos especialistas em todos os assuntos.'' A imposição de decisões sempre combatidas na legenda, como a MP que liberou o plantio de soja transgênica, tem alimentado a crise. Em nota pública, o deputado Orlando Desconsi (PT-RS) atacou a administração federal e o deputado Paulo Pimenta (PT-RS), que será relator da MP dos Transgênicos.
''Constatamos que há indícios de que a empresa Monsanto (que vende sementes de soja transgênica) começa a controlar setores do governo'', afirmou Desconsi. Na segunda-feira, o deputado Fernando Gabeira (RJ) anunciara a saída do partido, em protesto contra a política ambiental do Poder Executivo.
Diante da gravidade da crise, o chefe da Casa Civil, José Dirceu, e Genoino convocaram uma reunião de emergência para amanhã, da qual deverão participar Gabeira e a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Neste encontro, Dirceu pedirá ajuda para criar no Executivo uma política ambiental. Na tentativa de agradar a Gabeira e Marina, Dirceu autorizou-os a levar alguns ambientalistas ao Palácio do Planalto, de livre escolha, sem interferência da Presidência.
Gabeira disse que vai à reunião porque tem interesse em auxiliar na política de meio ambiente. Reafirmou que não recuará, embora tenha sido avisado de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai procurar convencê-lo a ficar no PT. Ele respondeu com ironia aos acenos que agora o Palácio do Planalto faz para que fique: ''Nesse caso, não adianta pôr o Duda Mendonça (publicitário do PT e do governo) para enfeitar o desastre do meio ambiente, porque não dá.'' Ele continuou: ''O núcleo que toma as decisões no governo não ouve ninguém.'' Esse núcleo é composto por Dirceu, pelo ministro da Fazenda, Antônio Palocci, e pelo chefe da Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica da Presidência da República, Luiz Gushiken.
O líder do PT na Câmara, Nelson Pellegrino (BA), disse que também defende o diálogo do partido com o governo. ''Eu sempre falo isso nas reuniões: 'Quero que o partido seja ouvido''', afirmou. Integrante da Força Socialista, uma das tendências radicais do PT, Pellegrino tem sido obrigado a engolir as imposições do Palácio do Planalto. Ele é contrário à cobrança da contribuição previdenciária dos inativos, mas teve de aceitá-la. Também é contra a independência do Banco Central (BC) e a manutenção do superávit primário de 4,25% do Produto Interno Bruto (PIB). Mas declarou que obedecerá às determinações do governo.
Genoino está preocupado om a situação. ''Tenho de dar um jeito de mediar e não de esgarçar a bancada. Vou lutar até o fim para manter o deputado Gabeira em nosso partido'', disse.

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