São Paulo - A Câmara dos Deputados deve votar nesta semana o polêmico projeto de capitalização da Petrobras. Trata-se de uma operação de no mínimo US$ 60 bilhões, a maior do gênero na história das finanças mundiais, que tem como objetivo reforçar o caixa da empresa para os investimentos futuros na exploração do pré-sal.
No entanto, a demora na tramitação no Congresso, aliada às dificuldades naturais de um empreendimento desse porte, já leva investidores e analistas de mercado a pôr em dúvida a realização da operação em 2010, o que representaria forte revés ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nesse cenário, a capitalização ficaria a cargo de seu sucessor.
''O processo está muito apertado. Cada dia que passa, a probabilidade de não acontecer (neste ano) aumenta'', afirmou o chefe de análise de renda variável da Modal Asset, Eduardo Roche. ''Na Câmara, onde o governo tem maioria, está difícil aprovar. No Senado, costuma ser ainda mais difícil. Se as votações não ocorrerem até abril, será complicado fazer neste ano'', disse o analista da Planner Corretora Victor de Figueiredo.
Dois recentes movimentos de mercado deixam claro que o pessimismo com a operação ainda em 2010 vem crescendo. O primeiro sinal, como contou ao jornal ''O Estado de S. Paulo'' um especialista que pediu para não ser identificado, é o comportamento de investidores estrangeiros: ''Representados pelas grandes corretoras estrangeiras que atuam no País, eles voltaram a comprar ações da Petrobras nas últimas duas semanas''.
Desde que a ideia da capitalização começou a circular, em meados de 2008, esses investidores se mostraram receosos com a empresa. Prova disso, explicou Roche, é o estreitamento da diferença de preço entre as ações ordinárias (ON, que dão direito a voto) e preferenciais (PN) da companhia.
''Historicamente, a ação ON custa 25% mais, mas, hoje, a diferença está em aproximadamente 11%. Isso ocorreu por causa da saída dos estrangeiros, que preferem os papéis com direito a voto'', disse Roche.
O segundo fator que revela ceticismo com o prazo da operação é o desempenho das ações da estatal na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), que está ligado à atuação dos estrangeiros. Entre fevereiro de 2009 e janeiro de 2010, os papéis da Petrobras apresentavam valorização bem inferior à da OGX (a empresa de exploração de petróleo do empresário Eike Batista) e do Ibovespa, principal termômetro da bolsa brasileira.
Nas últimas 4 semanas, porém, as ações da Petrobras ensaiaram uma recuperação. As preferenciais (PN) subiram 2,09% e as ordinárias (ON), 2,54%. No mesmo período, os papéis da OGX caíram 10,8% e o Ibovespa subiu menos do que as ações da Petrobras, 1,50%.
''Isso mostra que os investidores começam a achar que a capitalização não sairá este ano'', disse outro analista sob anonimato. ''Como existem muitas dúvidas sobre a operação, seu eventual adiamento significa uma boa notícia, ao menos no curto prazo, para os papéis da Petrobras.''

mockup